Bem-Te-Vi

Lucas Alves Serjento

Encaro o papel com desânimo. A tarde passa rápido do lado de fora da janela e os primeiros riscos alaranjados cortam o céu entre as nuvens. O fim da tarde se aproxima. O desânimo toma conta. Olho para o papel e lembro da vontade que sentia, ainda há pouco, de escrever uma longa carta de amor para você. Queria expressar o quanto eu teria lhe dado se você tivesse me dado a chance.
Mas as palavras não me vêm à mente.
Meus olhos pesam, o vento fraco me atinge e um leve rufar de asas chega aos ouvidos: suave, rápido por um instante e, no seguinte, inexistente.
É o suficiente para que eu volte à consciência e abra os olhos. À minha frente está um pequeno pássaro, parado sobre a minha escrivaninha. Ele não parece assustado com a minha presença ou com o ambiente estranho no qual se encontra. Apesar de tudo à sua volta indicar que não está onde deveria, tudo o que o pequeno animal faz é olhar para mim, virando a cabeça de leve após alguns segundos.
Eu sorrio. Que ser belo! Suas penas azul-esverdeadas sobre a cabeça e seu peito amarelado brilham sob a luz do sol. Ele é dono de uma graça superior que o permite me hipnotizar, ainda que não faça nada além de me encarar, como se me desse ordem para admirá-lo. E eu obedeço por não querer perder um segundo sequer, por saber que se ele decidir se retirar, vou me arrepender por não ter aproveitado todos os momentos em que ele esteve aqui.
O pássaro arrisca um movimento para o lado e, em determinado momento, vê a janela ao lado, no caminho pelo qual veio.
Ao invés de detê-lo, espero sua reação e, a seguir, admito seus movimentos. Como poderia ter feito algo diferente? Parar aquele ser simples e gracioso? Tentar me impor sobre a sua vontade? Jamais.
Ele voa em direção ao parapeito e eu me limito a segui-lo com os olhos. Será que sabe que provavelmente nunca mais me verá? Será que importa?
Talvez eu quisesse escrever uma carta para me despedir de você. Talvez quisesse tentar impedir sua ida dizendo que a amo ou me iludir pensando que um ímpeto de loucura conseguiria tal proeza. Mas ver aquele pássaro me faz entender que o céu é grande demais para nós dois. Por isso eu te deixo voltar para ele. Em breve será minha vez de abrir as asas e alçar voo. Por enquanto eu agradeço pela sua visita.
Adeus, meu Bem-Te-Vi.
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