Borbulhar

Lucas Alves Serjento

De onde vem esse sentimento de ser maior? Esse anseio de superarmos nossas próprias barreiras para nos tornarmos mais do que somos? Esse desejo por buscar um caminho?
De onde vem essa ânsia pelo desconhecido? Porque continuamos lutando contra nosso estado de repouso e nos compelindo a provar que temos algo em nosso destino que os outros não têm?
Donde tiramos essa inclinação natural ao pensamento de que precisamos ser mais do que somos? De querer um motivo para viver? Porque não nos conformamos com o simples e o normal e precisamos de um sentido para que o próximo passo não seja em vão?
Porque pedimos desculpas quando sabemos que não temos culpa? Porque dizemos obrigado por algo que deveria ter sido feito sem nossa interferência?
Porque não matamos a quem nos fere? Porque ninguém sabe o que é o amor? Ou então descrever com clareza o que é o ódio? Porque as pessoas não sabem explicar o laço de uma mãe para com o filho? Ou dizer a razão de acharmos que realmente existe um “bem” e um “mal”?
Porque temos essa intensa necessidade de estar em grupos? Porque precisamos estar sempre ao lado de alguém que gostamos ou nossa vida de repente não faz sentido? Porque acreditamos em entidades superiores? Porque queremos ser parte daqueles que estão ao lado das entidades do “bem”?
Porque temos medo do escuro e do silêncio? Porque sentimos dor sem ter feridas? Porque nossos corações partem ao saber que não vamos veremos um ente querido, mas não sentimos mais do que compaixão por outro ser humano que morreu num tiroteio?
Porque somos egoístas? E, sendo egoístas, porque não valorizamos mais o altruísmo? Porque cada letra que escrevemos não faz sentido se não a sentimos em nossos corações? Porque tantas palavras que dizemos só fazem sentido se nosso coração estiver vazio? Porque tantas imagens que imaginamos só funcionam se estiverem cheias de sentimentos e ausente de palavras que possam a descrever?
Como nós sabemos que tudo isso somos nós? Como sabemos que sem isso não somos humanos? E porque queremos ser diferentes e ter um destino com um propósito maior, mas não conseguimos abrir mão de receber uma designação comum a outros semelhantes?
Porque falamos mais do que ouvimos? Porque nossos problemas mais banais podem ser tão mais importantes que a vida inteira das outras pessoas? Porque isso parece tão comum e claro quando observamos aos outros, mas nós mesmos somos incapazes de mudar?
De onde vem isso? Essa necessidade de provar que somos mais? Essa necessidade de amar? Esse desejo de chorar? Essa compaixão pelas lágrimas alheias, por mais que o motivo pareça vazio?
E se somos mesmo tão egoístas, porque ainda temos essa ponta de sentimento no coração que diz com clareza que seríamos capazes de dar a vida pelas pessoas mais próximas? E se precisamos tanto viver em conjunto, porque precisamos nos achar diferentes e distantes?
Porque falamos sozinhos? Porque fazemos planos que sabemos que nunca se concretizarão? Porque sonhamos? Temos mesmo livre arbítrio? Então porque continuamos nessa servidão voluntária, se só sabemos reclamar dela?
Queremos mesmo liberdade ou continuaremos sem viver, presos pela televisão, computador ou celular? Porque precisamos deles para nos sentir parte da sociedade? Novamente, porque precisamos nos sentir como parte da sociedade?
Amor? Ódio? Paz? Felicidade? Tristeza? Porque temos tantos sentimentos que não conseguimos explicar e ainda assim faltam palavras para nomear esse coquetel de emoções que nos revira por dentro?
E porque, não importa o quanto conquistemos, esse desejo de ser mais continua? Esse borbulhar que nos dá impulso e nos faz cometer loucuras? Esse implodir que nos faz sentir bem, mas que também nos consome e nos torna capazes de tudo para continuarmos querendo ser mais?
Responda-me: Você também sente esse borbulhar?
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