A Derrocada da Ficção Científica

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Esse texto não tem qualquer intenção de prever o futuro com precisão, mas a simples exposição do ponto de vista do autor quanto ao assunto discutido.


A ficção científica sofre de males bastante peculiares. Desde sua formação, esteve sempre fadada aos efeitos do tempo. Afinal, apesar de buscar, em seu interior, a discussão sobre assuntos universais e atemporais, outros gêneros o fazem de modo direto ou, ao menos, mais direto. Ainda, outros “acompanhamentos” da narrativa, como, por exemplo, ambientação, são compostos por elementos que não se alteram ou, quando se alteram, não o fazem de maneira tão absurda.
E não se entenda aqui “absurdo” como algo pejorativo. A verdade é que a ficção científica não se comporta como outros gêneros. Em geral, todos os arredores do tema principal são modificados para a realidade criada pelo autor. O cenário se modificou, o ano é futuro, a descoberta faz uma alteração tecnológica impossível no presente. No momento de concepção da obra tal elaboração é memorável, mas, com o passar dos anos, a tecnologia avança, a sociedade se modifica e, com isso, os principais pilares de histórias do gênero caem por terra e então surge a ferrugem naquilo que resta de sustentação. Some a admiração pela imaginação do autor e, em lugar, surge um fio de ironia na leitura e uma indesejada quebra na credibilidade do leitor. Afinal, suspensão de descrença consciente e imersão são uma coisa, pena e aceitação são outra.
E é por causa dessa característica que a ficção científica evoluiu. Grandes gênios – como Isaac Asimov, por exemplo – aprenderam a utilizar as características do gênero em extremos, elevando a sociedade a interplanetária e, ao invés de ter o tempo contra si, utilizaram-no como catalisador da curiosidade. Assim, sociedades absurdamente evoluídas existem e os anos nos quais as histórias se passam sequer são mencionados (e, quando o são, todos logo se distraem com os outros fatores e pensam apenas em “futuro”). A problemática aqui, claro, não é de todo eliminada, uma vez que alguns aspectos podem ficar obsoletos (como o conceito de videocomunicações, que não podiam prever o avanço dos anos seguintes) e algumas descrições se desgastam pela passagem dos anos. Entretanto, essa maneira de abordar o tema gerou um modo de encarar a história com novos olhos. O problema sempre foi o de que, para ser um escritor desse tipo de ficção científica, jamais bastou escrever bem ou ter uma boa história, pelo contrário: Agora você precisa ter visão de futuro. Prever onde a tecnologia vai chegar. E, para alguns autores, a pesquisa de tal futuro não é útil e, muitas vezes, apenas procurando meios de mascarar a essência de sua trama, abandonaram a roupagem da ficção científica e adotaram outras, como fantasia.
Claro que o “desgaste” falado aqui não se aplica a tudo. Tramas que tratam sobre futuros ultrapassados muitas vezes se concentram nos personagens. Essas são as tramas que acertam, ainda que estejam em um ambiente desatualizado, justamente porque as pessoas nunca mudam. Os problemas são sempre os mesmos. As soluções enxergadas são sempre as mesmas. O que muda é justamente a “roupa” e essa pode ser qualquer uma, até mesmo uma que já não está mais na moda. Se a história é espetacular ou tratada de modo excepcional, não há leitor que resista.
Apenas recentemente surgiu uma outra alternativa que não a extrapolação excessiva da visão de futuro: O abandono daquilo que se entende por ficção científica, não como uma exclusão do gênero, mas como uma reformulação do mesmo. Afinal, o gênero sempre se dedicou a abordar um futuro possível e próximo, como uma espécie de “passo seguinte” da tecnologia. Justamente essa característica fazia com que os livros precisassem se renovar a cada novo passo da humanidade. Atualmente, ao invés de se pegar o aspecto “científico” e explicar a evolução ou estudar o que se pode melhorar, recolhe-se o aspecto “ficção”, extrapola-se a realidade e a explicação para o fenômeno ocorrido dá-se somente como ferramenta para a narrativa. Em prol de preservar o gênero desejado, rebaixa-se o mesmo ao cargo de “auxiliar” para a histórica contada.
Graças a isso, imagina-se uma solução “científica” como um mero fundo de verdade e levada ao absurdo, deixando o aspecto “real”, tão típico do gênero, de lado e adotando em seu lugar algo muito próximo à fantasia.
E é dessa maneira que concluo esse texto: Com o aviso de que, da maneira com a qual o gênero tem se guiado, ao invés de se ter uma ficção científica adaptada ou mesmo aquela evoluída pelos mestres do passado, ter-se-á o esquecimento do gênero, substituído pelos contos de fantasia e engolido por outra ramificação literária até que a própria movimentação social reinicie o processo para que o movimento se reapresente, da mesma maneira como foi concebido, ou seja, sujeito aos mesmos problemas com o tempo e despido da evolução que seria possível alcançar com a lapidação do modo atual.
O autor desse texto não se exime da culpa, já que seus livros também são parte do movimento da fantasia transformada em conto (em uma fuga desesperada das sagas intermináveis). Cabe a nós agora tomar o fardo sobre as costas e lutar para não deixar morrer um gênero tão peculiar. E, quem encontrar a resposta para salvar a ficção científica deve dividi-la, para que não corramos o risco de deixar que mais um aspecto da arte morra como vítima do esquecimento.

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