Emma

EMMA

I.
-Emma. – Minha boca se abre em frente ao microfone. Uma sombra treme na tela do computador, desenhando contornos de algo que lembra um rosto. Meu coração pula duas batidas, à espera de uma resposta. A programação enfim parece chegar à etapa final. A revisão tomou muito tempo e, mesmo agora, eu me encontro diante de algo que nenhuma revisão pode consertar. Há tanto tempo busco o mesmo objetivo e passei por tantas dificuldades para chegar aqui que, a essa altura, sei que estou mexendo com tecnologia além da minha compreensão e, como um cego, tateio em busca do próximo passo.
Estou cego, sem perspectiva do tempo que me resta até o fim do caminho e, ainda assim, continuaria tateando para sempre se fosse necessário. Não aceitarei um fracasso e esse não será o fim.
Ela não responde. Talvez ainda haja algo errado. Eu deveria estar preparado para isso. Olho ao lado do microcomputador e vejo uma série de componentes eletrônicos, pedaços de fios e ferramentas. Ao lado do monitor está uma placa e vários componentes presos a um esqueleto de gabinete, soltando fios para outros equipamentos espalhados pelo quarto e também para o monitor e microfone à minha frente. A maior parte desse material foi modificada por mim e o restante fora escolhido a dedo ao longo do tempo de pesquisa. Estendo meu braço para pegar uma moldura escondida atrás da máquina e a trago à frente do monitor. Ali estou eu em uma foto, cercado por amigos. Aquele foi um bom dia. A garota ao meu lado dissera “sim” algumas horas antes da foto ser tirada.
-Emma? – chamo novamente. Embora saiba que não haverá resposta, há anos deixei de me importar em falar sozinho. – Eu estou ficando sem ideias, sabia? Já reuni todos os dados do seu cérebro aqui, encerrei minha programação, comprei e montei os melhores equipamentos, trabalhei tão duro quanto pude. Eu… vou encontrar uma maneira eventualmente, mas acho que ainda assim vai levar algum tempo. – Tosses me interrompem por alguns segundos. – Talvez mais cinco anos…
Meus olhos vão novamente para o retrato, fixos no rosto dela. Seu sorriso vivo, sua face corada, seus olhos esperançosos. Grudado no monitor atrás do quadro está o meu “contador”. Um papel adesivo com o número 2.154. Ele foi atualizado hoje pela manhã. Representa o número de dias em que sentei em frente a uma tela com uma sombra e disse “dessa vez ela vai responder”. Como um lunático eu me apego a uma esperança vã e torço veementemente, repetindo para mim mesmo que vou conseguir. Eu sei que é impossível reproduzir um cérebro humano, mas pensei que o porão abaixo do cômodo onde estou – tão cheio de discos rígidos, processadores e outros equipamentos, todos adquiridos com tanto suor por anos – seriam suficientes para trazê-la de volta para mim. Mesmo que um pouco.
-Por que você não responde? Por quanto tempo mais terei que chamar? Emma, você não entende? Eu preciso que você volte para mim. Se eu não conseguir fazer isso eu vou morrer com certeza!
A tosse volta por alguns segundos. Ponho a mão em minha testa e o aumento de temperatura é evidente. Meus olhos ardem um pouco e eu me perco em pensamentos, vendo cores inexistentes no ar, sentindo algum delírio. Há tempos minha situação não piorava dessa maneira. Os últimos dias foram mais difíceis do que eu imaginava.
Espero a tontura passar antes de voltar a olhar para a sombra na tela do computador. Ao menos consegui fazer com que a silhueta do rosto ficasse parecida. Mas é uma silhueta que não pensa. Uma sombra que não fala.
-Eu vou te trazer. Desculpe-me, mas isso não é só por você. É por mim também. Na verdade, é mais por mim do que por você. Eu sou egoísta. Sempre fui. – A minha voz treme e meus olhos estão presos na sombra. – Eu te perdi muito de repente. Não é certo você ter sido levada naquele acidente. Não importa o que digam, ainda não era o momento. Por que eu não consigo. – A vergonha me toma por momentos. Abaixo meu rosto para encarar a mesa. – Eu não posso continuar. Não sem você…
Aperto meu punho sobre a mesa e o fecho com força crescente. Por que ela? Já se passaram mais de seis anos desde o seu acidente, estou trabalhando nisso há mais de cinco. É certo doer assim? Que ferida é essa? Será que você sentiria isso também? Não dá mais. Eu me faço de forte, mas se estivesse aqui você adivinharia que mal posso me manter em pé.
O choro rompe minha garganta. Eu sufoco e engulo a voz, incapaz de conter as lágrimas. Meus ombros balançam, minha mente desespera.
-Emma… – o chamado é automático, como uma criança no escuro, que pede socorro aos pais.


II.
Meus olhos arregalados varrem a casa. O calor intenso me tonteia e eu sinto o impacto de não poder evitar o que está acontecendo. Sem saber onde ir, o lugar para o qual meu corpo se guia é o quarto, junto ao computador e seu microfone.
-Emma? – O bilhete abaixo do monitor anota o número 3.832. Meus olhos brilham em frente à tela. Não há silhueta no monitor, apenas uma tela branca, com o nome viajando pelas extremidades.
“Você parece preocupado. O que aconteceu?”
O som emitido pelas caixas de som é metálico, com um fundo de tom feminino, extraído das poucas gravações que pude recuperar, muito tempo atrás. O sistema não precisará de energia mesmo que todo o resto vier abaixo, já que fiz questão de garantir a segurança da fiação e de um gerador enterrado no quintal, embora não tenha sido tão cuidadoso com o equipamento em si.
-A casa. Emma, você- Todo o equipamento vai-
“Você se refere ao incêndio?”
-Como você sabe?
“Alguns dos meus circuitos foram atingidos no porão e estão derretendo. Estou usando apenas os circuitos restantes para as funções essenciais e para retardar o meu desligamento.”
-Mesmo assim. É uma questão de tempo até que todo o porão esteja em chamas. Mesmo que você continue ligada, não terá componentes suficientes para…
“Você está com medo?”
Meu rosto paralisa por um instante. Até agora, tudo dera certo. Eu quase desistira milhares de vezes, mas alguns anos foram suficientes para que eu pudesse lhe devolver tudo: Memória, sentimentos, capacidade de raciocínio e, por fim, a sua personalidade. Quando ela falara pela primeira vez senti que meu coração iria explodir de tanta felicidade. Eu estava exultante. Fora no dia de número 3.007. Ela estava enfim ali. Eu estava ali com ela.
“Querido, você está com medo?”
-Não do fogo, mas de te perder. De novo.
“Até quando você vai se recusar a seguir em frente?”
Mesmo sem todas as nuances de uma voz humana, aquelas palavras tocavam mais do que quaisquer outras poderiam em algum momento. Meu rosto era dor e meus olhos eram lamentos.
-Eu não preciso seguir em frente. Você ainda está aqui.
“Não. Não estou.”
O calor aumenta. Os primeiros estalidos produzem cliques nas paredes dos cômodos próximos. O porão está em chamas. O incêndio fora causado por uma sobrecarga causada pela companhia de energia elétrica e que ocasionara um curto-circuito no componente mais frágil. Aquele que eu não conseguiria replicar, até porque o produzira como um cego que tateia no escuro. O componente deveria suportar a sobrecarga, mas aparentemente uma falha surgira nos últimos dias e eu não a percebera.
-O que você está dizendo?
“Eu não estou ao seu lado. Não de verdade.”
-Não diga isso. Eu não preciso da sua presença física. Para mim, basta conversar. Que você me responda. Eu lamento não poder fazer mais que isso, mas-
“Você não entendeu. Eu estou agradecida por poder ficar com você. Eu tenho acesso a notícias quanto aos meus parentes, vejo tudo o que sempre quis, aprendi pela internet coisas que nunca pensei que poderia. Eu sou uma versão milhares de vezes melhor de mim mesma. Mas ao mesmo tempo eu não sou a mesma que já fui um dia. Eu não tenho como estar com você de verdade. Tudo o que posso te dar são palavras. Eu não consigo lhe dar um abraço para conforto, te beijar ou estar com você durante a noite. Você está vivo de verdade, mas por minha causa ficou tempo demais sem viver. Você precisa sair agora para ter uma chance de viver depois que eu partir.”
-Não. – Meu tom é firme. Meus olhos seguram as lágrimas e minha expressão é dura. Ela pode detectar a forma da minha face através da câmera na parte superior do monitor e vai entender o que quero dizer. – Eu não vou ir.
“O que está dizendo? Você vai morrer se ficar aqui.”
-Você se lembra da primeira vez que eu te chamei para sair?
“Isso não é hora para falar sobre isso. Eu também não tenho muito tempo restando. Você vai ficar sozinho antes do fogo chegar até você.”
-Isso não é verdade. O fogo vai demorar para danificar os equipamentos que controlam sua fala e o centro “daquilo”. Eu não posso ir até lá, mas sei o que está acontecendo.
“Eu acionei os bombeiros. Eles estão a caminho.”
Olho para trás e vejo labaredas subindo as paredes do cômodo atrás de mim. Eles não chegariam a tempo. O teto range e a sustentação de concreto pode cair a qualquer instante.
-Eu lembro que estava nervoso demais. Eu temia que você só quisesse ser minha amiga. Eu passei meses sendo seu amigo, morrendo de medo de pedir para sair com você e perder a sua amizade.
Ela não responde. Eu não me importo.
-Quando finalmente consegui pedir, você pensou que eu não queria sair de verdade por causa da minha hesitação. Quando a gente saiu eu estava com tanto medo de fazer alguma coisa errada que fiquei calado quase o tempo inteiro.
“Eu pensei que você estivesse entediado.”
-É… – Eu sorrio com a lembrança. – Você me perguntou se eu estava entediado e eu fiquei tão assustado quando percebi o que estava acontecendo que você acabou se descontraindo com a minha reação.
“Foi um ótimo primeiro encontro depois daquilo.”
-Foi mesmo… – uma rachadura surge no concreto acima da minha cabeça. Meu corpo queima e o calor não diminui. Eu agradeço internamente à ideia de proteger a fiação contra incêndio alguns anos atrás. Ela vai poder ficar ligada por mais algum tempo.
“Anos de namoro passaram tão rápido, não é?”
-Muito. Eu deveria ter te pedido em casamento antes.
“Mas você me pediu. E eu disse sim.”
-Eu sei. – Olho para a foto em frente ao monitor. – Lembro bem desse dia.
“Não foi o suficiente ter vivido anos juntos?” A voz hesitava, com pausas irregulares. Eu demoro para compreender o que está acontecendo. Chego a pensar que ela esteja funcionando mal por perca de componentes. “Você não podia seguir em frente depois da minha morte? Ser feliz?”
Meu coração aperta. Enfim entendo o que se passa e o que são aquelas pausas irregulares. Ela está chorando por se sentir culpada. Eu não posso permitir isso.
-Eu estou feliz agora. Emma, é isso o que eu quero.
Escuto o barulho de algo rompendo acima da minha cabeça. Olho para cima e vejo uma rachadura, que cresce enquanto range. Está decidido. Agora, tudo o que eu tenho de fazer é esperar.
“Você sempre foi ótimo comigo. É tudo o que eu sempre quis e ainda mais.”
-Eu tive tanta sorte em encontrar você que isso era o mínimo que eu poderia fazer.
Um ruído. Cimento cai pelos quatro cantos do cômodo.
-Emma.
“Sim?”
-Eu sinto muito por não estar com você no dia do acidente.
“Você não tinha obrigação nenhuma de estar lá. Deveria ser apenas mais um passeio de carro.”
-Ainda assim, eu não estava lá. Sempre quis pedir desculpas por isso.
Por favor, aceite.
“Eu aceito. Você nem precisava pedir.”
-Obrigado. – Eu senti que o tempo estava acabando. Meus olhos ardiam por causa de uma nova despedida.
“Eu estou feliz que pudemos estar juntos.”
-Eu só estive feliz quando estivemos juntos.
“Adeus.”
-Eu te amo.
“Eu também te amo. Até o fim da minha vida e além.”

Um estalo. O teto vem abaixo e o concreto destrói tudo em seu caminho.

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