A Desvalorização do Romantismo na Literatura

Uma Opinião Sobre

Texto: Lucas Alves Serjento

Imagem: DGlodowska. Mais em: Pixabay.com.

O texto a seguir não tem pretensão de ser mais que uma opinião. Não deve ser considerado padrão ou guia para ninguém, mas sim um breve ponto de vista para fomentar possíveis discussões.


É interessante a maneira como algumas pessoas pensam. Principalmente naquilo que diz respeito a qualquer forma de arte. A preferência, muitas vezes inata, se apresenta na forma mais clara e, em decorrência disso, muitas vezes ficam aparentes as maneiras como alguns fatores influenciam e, muitas vezes, jogam a pessoa na direção do “gosto” ou “não gosto”. Uma analogia interessante é a de alguém que nunca treinou o paladar e apenas se alimentou de comidas simples, sabendo que carne de boi e de galinha tem gostos diferentes, que carne assada e frita são diferentes, mas que não notam as nuances no tempero ou são incapazes de perceber pequenas alterações no preparo. Da mesma maneira alguém que não se acostumou à literatura julga um livro pela capa, ou pelo tamanho dos parágrafos, ou pela maneira do autor manifestar termos específicos. E, muito provavelmente, o movimento literário observado em retrospecto hoje que mais se prejudica com isso é o Romantismo. Aqui falando do Romantismo como ocorreu na literatura brasileira, mais especificamente.

Talvez por conta do floreado das palavras, talvez pela maneira como o autor se prende em descrições, ou pelo modo como declama palavras mais como sonhos do que como realidades, o autor romântico se expressava de uma maneira reconhecidamente menos prática. Assim, seu foco não era falar o que ocorreu com “A” ou com “B”. Seu foco também não era falar onde “A” e “B” estavam. Tampouco seu desejo era dizer o que “A” ou “B” sentiam. Porque isso toda literatura faz. O texto mais “realista” de todos também se perde em palavras sobre a maneira como o personagem age, onde está, o que sente, o que fará. O grande diferencial do romantismo nesse contexto é que ele objetiva dizer essas coisas de uma maneira, por óbvio, Romântica. E, de todos os aspectos de um escrito romântico, a escolha das palavras é definitivamente a mais aparente a um leigo. E é o julgamento prematuro, ou de alguém inexperiente, ou afobado, que prejudica todo um estilo, que oferece tanto e que, por causa de tais críticas, está sendo evitado por escritores novos.

Tais críticas são bastante simples: Consiste em dizer que muita coisa é escrita, mas pouco é dito. Que a escrita é intrincada e de difícil (alguns dizem “impossível”) compreensão. E não passa disso. Com a imagem de que as palavras usadas são desnecessárias, toda a história é vista com maus olhos e basta uma frase um pouco mais difícil ou um pequeno deslize para que a visão geral seja prejudicada.

Essa crítica, até certo ponto, não está incorreta. Realmente, um texto precisa ser acessível e o uso desnecessário de termos que não se utilizam na vida podem assustar. Porém, alguns textos ganham valor justamente por causa da escolha das palavras. Tomemos por exemplo o romance “Senhora”, de José de Alencar. Aliás, tomemos qualquer dos romances de José de Alencar por exemplo. É louvável o esforço feito para encontrar a palavra certa no momento certo para expressar não apenas o sentimento, mas a ação e aquilo que ela deve representar. A título de exemplo, vamos ver o seguinte trecho de “Senhora”:


“Se um retraimento lascivo, peculiar à raça felina, imprimia ao dorso de Aurélia uma flexão ondulosa, que dilatando-se no abalo nervoso, brandia o corpo esbelto; essa vibração elétrica repercutia em todo o organismo de Seixas.”


Para conceitualização, digo que esse trecho se passa em um momento em que os protagonistas, Aurélia e Fernando, dançam juntos uma valsa. Após um longo período de apatia de Aurélia e de tristeza para Fernando, o casamento de ambos parece estar fadado a um fim próximo e o leitor é levado a pensar que os sentimentos de ambos estão frios. Eis que, nessa dança, diversos aspectos do relacionamento são revistos e, durante o valsar, Fernando (Seixas) têm de resistir à tentação de fazer qualquer avanço em relação a Aurélia, visto que uma recusa dela significaria uma derrota da qual ele jamais poderia se recuperar.

Então, durante a dança, vê-se que Aurélia ainda exerce grande força sobre ele e que, durante todo o tempo, ele tem que se precaver e resistir à tentação. Agora, por gentileza, leia novamente o mesmo trecho:


“Se um retraimento lascivo, peculiar à raça felina, imprimia ao dorso de Aurélia uma flexão ondulosa, que dilatando-se no abalo nervoso, brandia o corpo esbelto; essa vibração elétrica repercutia em todo o organismo de Seixas.”


Não vou ser pretensioso e dizer que, se não gostou, então essas são “palavras grandes demais para mentes tão pequenas”, até porque isso seria o mesmo que dizer que eu não tenho nenhuma razão lógica para alterar sua opinião. Porém, mesmo quem não gosta do gênero pode admitir que cada palavra é escolhida a dedo. “Retraimento”, “lascivo”, “dilatando”, “flexão ondulosa”, “vibração elétrica”, “organismo”. Todas essas palavras poderiam ser substituídas por outras, talvez mais simples, porém, o autor as escolheu propositalmente, construindo uma frase com o objetivo de passar o sentimento de ameaça que o protagonista sentiu, ao mesmo tempo em que ele é incapaz de recuar diante da tentação. Percebe? Até mesmo a escolha da raça “felina” para descrever o comportamento de Aurélia é proposital, para lembrar o leitor do ambiente selvagem e fazê-lo sentir algo próximo ao que Seixas estaria sentindo. A escolha de eletricidade também é proposital para causar o “arrepio na espinha”, ou o “revirar do estômago”, sem fazer alusão direta justamente para que o leitor sinta ao invés de ler.

Isso é observação adquirida através de uma simples frase. Imagine um livro inteiro feito com o propósito de causar sensações através das palavras. Claro que os outros estilos também objetivam isso, porém não o fazem como foco principal, mas como acessório à linguagem ou à história.

Claro, esse estilo encontra diversas barreiras. A primeira é a pressa. Um leitor que não tenha tempo de ler com calma, ou ler mais de uma vez, passará os olhos pelas palavras e não sentirá nada, apenas insatisfação pela leitura dificultada pelas palavras que não dizem diretamente o que querem dizer. A segunda é a limitação regional. Um escritor em português somente se comunicará nesse estilo de maneira satisfatória com um leitor de português. Uma tradução, por melhor que seja, não expressará 100% do desejo do autor. A exceção é quando o escritor faz a tradução ou quando o leitor abre mão de sua língua materna para ler em uma língua estrangeira, mas em ambos os casos a chance de perda é grande, porque o escritor provavelmente não terá a mesma habilidade na língua estrangeira que tem com a sua língua materna e o leitor pode não ter a mesma compreensão que tem da sua língua originária. E aqui não é uma questão de subestimar o escritor ou o leitor, mas de saber das nuances e complicações que todas as linguagens têm, ainda mais quando o objeto do livro é justamente trabalhar as especificidades e sonoridades de cada palavra. A chance de errar sofre de aumentos exponenciais por conta desse e de outros fatores.

Outra barreira está na própria pessoa do escritor. Uma pessoa com menos experiência, tempo ou habilidade está sujeita a mais erros e, consequentemente, pode falhar em transmitir sua mensagem. José de Alencar foi o escolhido para servir de exemplo nessa matéria justamente porque ele talvez seja o único escritor brasileiro que tenha alcançado a excelência no estilo. Ele demonstrou o que é possível fazer, porém, infelizmente, outros não conseguiram chegar ao patamar que ele estabeleceu.

Além disso, há também a aparente falta de prática de um livro no estilo romântico. Afinal, não é uma mensagem que o texto quer passar? Não é palavras que um texto pode utilizar? Pois que diga com as palavras mais objetivas possível! Para alguns, usar o sentimento ou a sensação causada por cada palavra é um erro ou tergiversação que deve ser repudiado.

Outras barreiras que eu não me recordarei também estão presentes. A última que irei citar é a experiência pessoal de cada um. Como vimos, o objetivo é escolher cada palavra para que ela desperte algo inconscientemente (ou conscientemente) na pessoa que lê. Porém, muitas vezes, as pessoas têm experiências diversas daquelas que supõe o autor que elas tenham. Isso faz com que uma palavra escolhida a dedo não produza o efeito desejado e, por conseguinte, o leitor fica prejudicado e não compreende o que foi escrito (não em sua totalidade).

Por essa e por outras o Romantismo têm sido abandonado. Claro, é natural que um movimento saia de moda e que outro tome o seu lugar, porém, não é natural que um movimento seja desvalorizado e pisoteado como se fosse algo menor do que realmente é. E isso tem acontecido de maneira paulatina.

Não se deve olhar o Romantismo pelo que não conseguiu fazer, ou por suas limitações. Todas as formas de literatura (e mesmo de arte) possuem limitações. E o que elas fazem? Continuam a transmitir aspectos sentimentais, da vida, etc. por intermédio das ferramentas das quais dispõem. Ao invés dessa desvalorização, o que deveria haver era uma averiguação dos aspectos que fazem o romantismo fantástico, como a maneira de abordagem dos temas, a forma de condução das frases, a escolha das palavras, a bem-sucedida indução de mensagens subliminares, etc.

Porque o mercado está cheio de livros que dizem diretamente o que querem que você sinta. Mas isso não é o suficiente. Muitas vezes, não queremos ler algo assim: “Personagem “A” me abandonou, agora me sinto triste com isso”. Em alguns momentos, queremos ler que as folhas que caem das árvores no início do outono parecem mais secas e, os galhos, mortos. Que o sol não irradia calor e as nuvens parecem anunciar tempestades eternas.

Claro, o romantismo não é perfeito e, muitas vezes, chega a parecer inadequado para as necessidades do momento. Porém, isso se aplica para qualquer tipo de livro. E, assim como os outros tipos, não deve ser desvalorizado porque é essa a visão que “pegou” daquele gênero ou estilo. Muitos nem mesmo sabem porque não gostam, apenas acham “difícil” ou “desnecessariamente complicado” e, nesse embalo, esquecem-se ou sequer souberam um dia o que se perderá caso o estilo seja jogado ao esquecimento.

O romantismo deve ser incentivado e motivado não apenas para fins históricos ou didáticos, mas porque representa algo que nenhum outro estilo consegue fazer e perdê-lo seria perder uma forma de manifestação dos aspectos que compõem a mente e sentimentos humanos.

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