Antes de Dormir

Antes de Dormir

Estava deitado, olhando o desenho do cimento nas paredes, quando pensei no amor. Bufei e concluí que se tratava de ilusão. E, mesmo que fosse real, não passava de um sentimento tolo, inútil e supervalorizado. Disse a mim mesmo que não amava, que nunca amei. Disse que não entendia o que seria aquela sensação em minhas entranhas quando estava perto de certo alguém. Devia estar louco, ou então doente, porque não era um sentimento real. Se fosse sentimento, não seria o amor.
Deitado, olhando o cimento, contei milhares de histórias a mim mesmo. Todas com fins rápidos e felizes. Preenchidas de tristeza e muitas delas sem qualquer espécie de propósito. Histórias para me fazer feliz ou qualquer coisa próxima a isso. Nelas eu era o personagem principal e vencia simplesmente porque a história era minha. Se meu papel era de vilão, então a história provava que eu era o herói, nem que fosse apenas do meu ponto de vista. Nessas histórias eu era o maior dos escritores, criando histórias fantásticas e que fascinariam gerações. Fui proclamado ícone e aclamado pelo mundo. Todos me admiravam. Devaneios noturnos que precedem os sonhos.
Histórias curtas, com finais felizes. E logo meus olhos se voltavam para o cimento da parede e, em seguida, para o lado vazio na cama. Por instantes penso vê-la ao meu lado. Claro, agora que não a amo ela não tem mais propósito algum aqui, certo? E ainda assim eu converso com sua imagem. Conto-lhe minhas histórias, relato as formas que vejo no cimento.
E eu falo e falo e falo. Com ela e comigo. Chego a conclusões filosóficas e organizo revoluções. Não durmo, mas sonho com uma multidão que me segue para derrubar os opressores, ainda que eu já não saiba mais quem são eles. Pensamentos vagos antes de um sono que não chega.
Mas são sonhos que se formam. Pensamentos antes de dormir. Formas no cimento e histórias curtas com finais felizes. Uma história que me traz um novo amor. Uma paixão que te mostra que eu sou melhor do que você pensou. Que demonstra a sua fragilidade.
O que é isso? Vingança? Meu suspiro cansado expressa mais do que palavras poderiam. Vingança fica para outro momento. Não é o certo agora. Minha revolução machucou muita gente e resolveu muito pouco. Será que essa mente vencida pelo cansaço não pode encontrar uma saída?
O movimento revolucionário poderá seguir sem mim, não é verdade? Eles podem se guiar sozinhos. Alguém pode tomar meu lugar. Eu ficarei na minha cama com meus devaneios.
Que imagens são essas no cimento? Que sombra é essa na minha mente?
Será que o amor não existe?
Será que existem sonhos ou tudo é parte dessa realidade embaçada em frente aos meus olhos?
Talvez sejam. Mas eu queria que fossem realidade. Eu queria que a realidade e sonhos fossem separados para eu poder ser um revolucionário na realidade. Para que eu possa ter uma história verdadeira. Para me tornar um filósofo ou qualquer coisa que me faça feliz.

Para ter meus braços ao seu redor e pensar em seu amor antes de dormir.

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