Um Homem

Um Homem

Um Homem
Texto por Lucas Alves Serjento
Imagem de Capa: Pexels. Mais em: Pixabay.com/pt/users/Pexels-2286921/
Nariz, olhos, orelhas e boca. Mais um homem que cheira, vê, ouve e come. Uma sombra nas esquinas, um pensamento sobre política, posição religiosa, gosto musical, hábito social.
Um homem e apenas isso. Não importa o quanto meu ego diga que sou diferente ou especial. E ainda que eu pense ser diferente, pensar assim só me faria ainda mais comum. Seria parte dos bilhões de habitantes no planeta que acordam todos os dias e se enganam, pensando que algo o faz diferente de todos os outros.
Não eu. Eu não me engano. Minha anatomia não me engana. Sou feito de carne e osso. Sinto dores. Não sou melhor nem pior que ninguém. Tenho decepções e, às vezes, sou tão imbecil quanto minha composição corporal me permite. Consigo ter manias impossíveis e cismas que só se justificam na minha mente.
Existem pessoas das quais não gosto apenas porque não simpatizo com suas feições. Existem pessoas com as quais simpatizo antes mesmo de saber seu nome. Já votei irresponsavelmente em eleições, já fui extremamente competente em tomar uma escolha social, já censurei pessoas de modo hipócrita. Sou impregnado de preconceitos e superstições, algumas das quais tenho certeza que são infundadas, mas das quais jamais me livrarei. Já lutei por pontos de vistas que se provaram errados, já desisti cedo de convicções que depois se provaram corretas. Sonhei e fui derrubado pela realidade, usei a realidade para derrubar sonhos alheios.
Já tive paixões das quais não gosto de lembrar, já amei e desacreditei a existência do amor. Gosto de pensar que sou um ser humano razoável e já fui o mais inflexível entre os homens.
Tenho saudades de pessoas que já conheci, sinto falta de alguém e também sinto falta de ninguém. Sou solitário e, às vezes, quero companhia, mas há momentos em que não quero ver mais ninguém.
Sou somente um homem. Mais um na multidão. Uma voz que se cala com medo de forças maiores, com olhos que choram, com coração que se aperta.
Não me engano pensando que sou especial. Mas essa necessidade de me manter ligado à realidade também é triste. Saber que sou apenas outro na rua, que a sociedade não me vê e que nada mudará tal fato, não é esclarecedor. É terrível. É assustador.
Eu não vou mudar a sociedade, transformar as mentes, conquistar corações. Não serei maior que ninguém. E, se não me cuidar, serei tomado por menor que os outros.
Sou um homem comum, de corpo e mente comuns. E sou feliz por isso. Não preciso me perder em reflexões porque é provável que nem mesmo elas alterem o que sou. Também não vai me impedir de viver minha vida.
Porque mantenho uma ideia vaga sobre tudo isso. E acho que talvez, lá no fundo, todos saibamos e mantenhamos nosso status de “comum” propositalmente. Não porque queremos algo ruim, mas porque sabemos que comum é bom. Talvez seja bom ser eu. Afinal, ainda tenho sonhos dos quais não desisti. Tenho ideias que acredito que vingarão. Tenho pelo que lutar e persistir. Porque é assim que eu sou: Teimoso. Insistente. Lutador. Humano. Apenas um homem.
Sou nariz, olhos, orelhas e boca.
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