Sertão e Assombração

Sertão e Assombraçao

Sertão e Assombração

Francisco Ferreira
Sertão para ser sertão
tem de ter assombração.
À luz tremeluzente da lamparina
o  vestido de chita pendurado
anima fantasmas nas paredes
e horrorizam meus olhos miúdos
de menino medroso:
−Mãe, tem sombração!
As galhas da gameleira
gemem o choro de Negro-Velho
firmando ponto à meia-noite
banzo, chibatas e saudades…
Arrastando suas correntes
na procura do ouro enterrado
aos olhos do patrão!
No mourão da porteira, o curiango avisa:
−Amanhã eu vou!
Agourando a sina da gente.
Nas pedras à beira do curral
a mula-sem- cabeça arrasta os cascos ferrados
em movimentos fantasmagóricos
de virgem namorada de padre.
No chiqueiro, o lobisomem
misturando-se aos porcos, rói o coxo vazio
com dentes do cujo, de coisa-ruim.
Nas cozinhas o saci assopra as saias de Sinhá
salga a comida e ainda cisma
de fazer traquinagens no cabelo da negrinha, Minha Fulô,
primeiro bem-querer de  menino da roça.
Nas encruzilhadas e bocas da mata,
passeiam porcas de pintainhos e galinhas de leitões,
(castigo de mulher da vida)
e outras avantesmas de menor grau.
Sertão de luz elétrica, automóvel e parabólica
não tem sertão, é periferia, zona rural!
Pois para ser sertão, à vera,
sertão tem de ter assombração!
Sobre o Autor:
Francisco Ferreira – Poeta natural de Conceição do Mato Dentro, com mais
de 600 classificações em concursos literários (Brasil, Portugal e Itália),
participante de centenas de antologias e de várias academias literárias
(RS, SP, ES, RJ, BA).
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