A Sombra do Romariz

A Sombra do Romariz

Projeto Renascimento

A Sombra do Romariz

Lima Barreto

Dizer que não trabalho mais à noite, no jornal, não é bem verdade. Licenciei-me por alguns meses, para lá não ir à noite. Quando há desses turumbambas políticos, na cidade, fujo do trabalho noturno. E faço semelhante coisa principalmente quando vejo certos nomes metidos neles.

Quem expunha isto era o tipógrafo Brandão a seu colega Barbalho que tinha observado àquele a sua ausência das oficinas do Diário Carioca, naqueles últimos dias.

Brandão continuou:

– Quando vejo tais nomes fico cheio de pavor, meu ânimo se estiola, não tenho coragem para nada, toda a minha personalidade é atingida de seca. Há dias, a mulher me pediu que fosse reconhecer a firma de um papel necessário a ela, a fim de receber uma pensão. Fui para a oficina, de manhã, hesitei, tive medo, afinal dei uma gorjeta a um aprendiz, para ir ao tabelião.

– Então, sempre estás trabalhando de dia?

– Que fazer? Preciso de algum dinheiro para as despesas inadiáveis; mas, à noite, nunca.

– Porque isto?

– É a sombra do Romariz.

– Quem é ou quem foi esse Romariz?

– Eu te conto. Em 1890, acabava-se de proclamar a República. Isto há trinta anos. Eu tinha vinte e poucos. De dia, trabalhava na Casa Mont’Alverne; e, a noite, fazia uns bicos, na Tribuna Liberal. Um jornal apaixonadamente monarquista que atacava o governo provisório sem peso, nem medida. A bem dizer, não o lia ou mal o lia, porque, quando deixava a oficina da Tribuna, para pegar o último bonde de Vila Isabel, onde morava, ele ainda não estava impresso.

A campanha da Tribuna era superiormente feita e levada com rijeza, no dizer de todos. Começou-se a falar que iam empastelar a folha. O governo desmentiu, assinalando que era seu ponto de honra manter a liberdade de pensamento e de imprensa.

Continuei a trabalhar com mais coragem e sossego. Vi senão quando, aí pelas oito ou nove horas, entrar pela oficina adentro o aprendiz assustado e avisando cheio de terror: “Fujam! Fujam! Lá vêm eles!” Perguntado o que havia, contou que descia pela Rua do Ouvidor um magote de gente, fardados e outros à paisana, a gritar: “Morram os sebastianistas! Morra a Tribuna Liberal! Viva o Marechal Deodoro!” etc., etc.

À vista da narração do pequeno, todos trataram de fugir. Em nenhuma seção do jornal ficou viva alma. Redatores, revisores, compositores, impressores – todos fugiram. Só ficou no edifício o Romariz, um pobre revisor que dormia profundamente, descansando a cabeça sobre os braços cruzados e estes sobre a mesa de trabalho.

Por mais que o sacudissem e o chamassem, não foi possível despertá-lo. O tempo urgia; e o infeliz revisor lá ficou abandonado. Ele vivia tresnoitado; trabalhava dia e noite para manter a mãe e os irmãos. Tinha um pequeno emprego na estrada de ferro, que mal lhe dava para pagar a casa em subúrbio longínquo; lançara mão do ofício de revisor de provas, para acrescentar sua renda. Saía tarde do jornal; havia poucos trucks naquele tempo; e, muitas vezes, só ia em casa para mudar o colarinho, comer um pouco e voltar à cidade, a fim de assinar o ponto na Central.

Como te disse, foi ele o único que ficou, devido a seu profundo sono, perfeitamente explicável como tu já viste. Os assaltantes foram entrando, quebrando balcões, máquinas, derramando as caixas de tipos no chão, enquanto outros subiam ao primeiro andar cheios de raiva que, neles, nada explicava. Topando com o Romariz dormindo, nem se deram ao trabalho de despertá-lo. Foram-no desancando de cacete e de coices de armas na cabeça e ele mesmo sem saber porque. Vi-lhe o cadáver, estava hediondo; vi-lhe a família, que ficava na maior miséria: vi…

– E daí?

– Daí é que quando há desses turumbambas políticos, vejo a sombra do Romariz que me diz: “Não vás trabalhar, à noite”.

– És espírita?

– Não; mas há muito mistério nesta nossa triste vida terrena.

Careta, Rio, 14.1.1922.

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Infelizmente, muitas pessoas desconhecem a figura de Lima Barreto. Contista, Jornalista e Cronista, demonstra leveza e astúcia em um estilo que cada vez mais se perde para dar lugar à escrita prolixa atual. Ainda assim, é interessante observar como seus escritos não perdem o “jeitinho” brasileiro característico, onde tudo é rápido, as conversas são o ponto interessante e situações ordinárias tomam rumos dignos do interesse do leitor.

Seleção por Lucas Alves Serjento

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O Projeto Renascimento é uma iniciativa do site Enchendo Estantes – Uma tentativa de chamar a atenção das pessoas para autores clássicos e a beleza de obras que correm o risco de cair no esquecimento.

Como o objetivo do projeto é ser acessível, os textos aqui colocados serão de autores pertencentes ao domínio público, logo, suas obras podem ser encontradas no site http://www.dominiopublico.gov.br, de modo a não ser infringida nenhuma lei de direitos autorais.

Eventuais obras estrangeiras aqui expostas terão traduções feitas pela equipe do site, de modo a não incorrer em quebra de eventuais direitos de tradutores nacionais.

O autor escolhido para abrir o projeto é Luís Vaz de Camões justamente por representar, com poucas palavras, a beleza e distinção inerentes à língua portuguesa, ainda que em pequenas amostras, como no caso de seus Sonetos, demonstrando a riqueza de um estilo já tão explorado e que em suas palavras permanece tão jovem.

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