A Epidemia das Sagas

A Epidemia das Sagas

Uma Opinião Sobre

A Epidemia das Sagas

Lucas Alves Serjento

Esse texto não é uma crítica, embora vá soar muito com uma. É apenas uma opinião sincera, sem objetivo de fazer ninguém odiar o conceito de sagas ou passar a rejeitar o gênero, até porque eu mesmo sou fã de diversas sagas literárias (e, se pudesse, escreveria várias).

O que ocorre no mercado e que é válido ressaltar é o movimento que ocorre há alguns anos (talvez décadas) de “sugar” (quase literalmente) todo o conteúdo possível e imaginável de determinado universo literário. Muitas histórias criadas para compor 300, 400 páginas, são estendidas e desviadas e arcos secundários são aproveitados – enfim, todo o possível e imaginável é feito para que se possa utilizar uma marca pelo máximo de tempo possível (por óbvio, para fazer o máximo de dinheiro possível).

Em alguns casos esse “espetáculo” é evidente e vale aqui uma breve nota sobre algo que pode ofender muita gente: O universo cinematográfico da Marvel. Calma. Antes de tudo, deixe-me dizer que sou fã dos filmes da Marvel. Sempre fui. Assisto a praticamente todos os filmes que lançam no cinema e cumpro meu papel de bom fã assistindo alguns desses filmes pela 2ª vez quando ainda estão em cartaz. Tenho vínculo emocional com os personagens e os filmes de qualidade alta sempre me atraem fortemente. Porém, é inegável que, aos poucos, a barreira do aceitável começa a ser ultrapassada. Afinal, são três filmes (se não mais) por ano. Ainda, temos uma série de problemas com o lançamento de um número enorme de seriados (Demolidor, Jessica Jones, Os Defensores, etc.) que têm mais de 10 horas de duração e, num futuro próximo, serão lançados em mais de uma plataforma (afinal, não apenas a Netflix distribuirá as séries da marca, mas o Hulu – rede de streaming – e a ABC – rede de televisão norte-americana – também exibem ou passarão a exibir novas séries). Assim, não me basta ir ao cinema. Como fã, eu tenho que assinar dois serviços de streaming, contratar tv a cabo e aceitar o delay entre o Brasil e os EUA de acesso às informações para acompanhar todo esse universo expandido – sem contar o tempo de vida do qual tenho de abrir mão para me manter atualizado.

A mesma coisa acontece com Star Wars (não estou culpando apenas a Disney, mas esses exemplos são excelentes) e seus spin-offs. Tudo bem que os fãs pediram, mas a responsabilidade é dos criadores (nesse caso, detentores de direitos) de limitar o volume de obras publicadas para não saturar o mercado. Se nem os prequels eram realmente necessários para a compreensão da história, porque vão lançar spin-offs, novos prequels, etc?

Isso sem contar a falta de tato e criatividade para largar trabalhos que já estão em andamento e encerrar quando o tempo é certo. Velozes e Furiosos está chegando ao nono filme da franquia e agora a Universal se predispõe a lançar spin-offs de personagens secundários. Repare que aqui estamos citando os exemplos que tiveram sucesso em suas empreitadas, porque não bastasse isso, temos as promessas que sequer viram a luz de um segundo filme e se limitaram a ser um filme sem pé nem cabeça – e, muitas vezes, sem conclusão alguma. Mas essa não é uma crítica de cinema. É uma opinião sobre sagas como um todo. E no mundo dos livros temos algo mais interessante a dizer.

Vamos questionar a existência de sagas. Por que existem?

A resposta é sempre a mesma: Porque os fãs pedem. As pessoas demandam mais material sobre determinada obra e realmente a compram. O que o investidor ou mesmo aquele criador sedento por mais atenção não conseguem perceber é que a relação entre o criador e seu público não é das mais racionais. O público pede, mas não é aquilo que ele quer. O público quer ficar ansioso. Ele quer sentir o gostinho de “quero mais”. Ele quer terminar de ler um livro e sentir que “poderia ter durado mais”. Esse sentimento dado por um serviço bem feito e pela especulação não tem preço. Isso constrói uma reputação e gera o valor de uma marca que, de outro modo, se desvaloriza.

Tomemos por exemplo a saga de livros do grande J.R.R. Tolkien. Esse velho senhor, mesmo sem querer, criou um material “limitado” dentro de sua expansão. O material original faz o básico: Dá o mundo, cria algumas histórias paralelas e, por fim, dá uma saga principal (diga o que quiser, para mim “O Hobbit” e os três livros de “O Senhor dos Anéis” formam uma única história – para não falar que tudo não está compreendido na saga principal) para estimular o imaginário e deixar o livro fazer aquilo que faz de melhor: Liberar a imaginação do leitor para que ele pense nas próprias histórias (seja criando, seja complementando aquilo que leu).

Talvez justamente porque Tolkien não possa mais criar material, as aventuras da terra média são privilegiadas com um rótulo permanente de “selo do criador” (vamos chamar assim) que ninguém pode substituir (ainda que venha a ser criado outro tipo de aventura por outro escritor). Isso torna aquele material algo especial e dá a Tolkien uma credibilidade que, de outro modo, seria perdida.

Esse movimento de “saga” não é recente. Sherlock Holmes e Poirot são exemplo de ótimos personagens que não são vistos em sua totalidade porque suas obras são muito extensas. Poucas são as pessoas que leram todas as histórias dos personagens e muitos que fizeram isso apenas completaram a “coleção” para satisfação do ego. Muitas das histórias não têm a qualidade das principais obras e é absolutamente compreensível que alguns autores deem pontos finais a tais personagens (cujas histórias são antológicas) com o propósito de impedir a proliferação de livros cujo único propósito seja estender a história por intermédio de outros escritores (Agatha Christie e seu Poirot, por exemplo).

Michelangelo costumava dizer que o artífice não deve ouvir somente o que o cliente quer. Deve enxergar, nas palavras de desejo do cliente, aquilo que está por trás delas e encontrar o âmago de seus desejos. E o que os fãs das sagas atuais pedem não é por mais uma série de lançamentos de mais do mesmo. O que eles querem é resgatar aquele sentimento inicial de poder e descoberta. Aquela maravilha que pairou em frente aos seus olhos e se abriu como um universo novo. E apenas pedem por mais do mesmo porque aquilo que viram é aquilo que conhecem.

Então cabe aos criadores de conteúdo compreender quando encerrar e começar de novo. Abandonar e restaurar. E também saber quando continuar, porque alguns encerram cedo demais com medo de se estender desnecessariamente.

Essa não é a propositura de uma solução, mas a exposição de uma opinião e um desabafo. Um pedido para que espectadores e criadores abram os olhos e impeçam que a descerebração do entretenimento se propague. Não basta criar por criar. O objetivo é criar para provocar algo no interlocutor. Algo além de um leve e paulatino desgaste que fatalmente culminará no abandono triste daquele moribundo, que um dia já foi uma ideia jovem e interessante.

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