Científico Amor

Científico Amor

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Regiane Folter

Amar é complicado. Duas pessoas são dois universos inteiros tentando construir uma ponte que os unifique. Mas criar uma Via Láctea entre duas almas não é trabalho fácil.

Elisa olha o céu estrelado da barraca entreaberta e se pergunta como, em um espaço de dois por dois compartilhado com outra pessoa, ela poderia sentir-se tão sozinha. Do seu lado, o homem que ela jura que é o amor da sua vida. E que nesse momento está tão distante, separado dela por um buraco negro de coisas não ditas e pensamentos desencontrados.

Amar é uma dor de cabeça sim, porque implica deixar de lado nossos preconceitos e opiniões para aceitar o outro e reforçar assim um sentimento de puro afeto e dedicação. Algumas vezes isso significa ir de encontro a nossos valores e mudar nossas perspectivas, somente para devotar-se a um outro alguém. Tudo que é parte de mim, tudo em que acredito e que prezo, tudo o que sou pode ser colocado em prova no processo de aproximar-me e apaixonar-me por outro ser humano, que teve outra vida, e como resultado tem outros valores, medos, sonhos, traumas, experiências.

Mas é óbvio que não é sempre que temos consciência da imensidão do que estamos fazendo ao decidir amar. Em realidade, pouquíssimas vezes chegamos a essa conclusão. Na maior parte do tempo, somente nos entregamos às emoções desenfreadas que um coração apaixonado produz. Hormônios, reações químicas e sabe-se o que mais, que fazem com que nossos olhos, cérebros, mãos e bocas sejam marionetes do calor ou do frio que o amor nos faz experimentar. E é por isso que ao invés de filosofar sobre esse complicado sentimento, Elisa prefere fazer biquinho de braços cruzados e irritar-se cada segundo mais com o companheiro de vida e de barraca, que joga no celular com uma cara de tranquilidade totalmente forjada.

Na cabeça dela, o motivo da briga se revira, vai e volta, e ela controla se a cena passa mais rápido ou em slow motion no cinema que tem em sua mente. A raiva escorre como um líquido flamejante, ela faz a ele um milhão de perguntas mudas e encontra somente as respostas que ela mesma decide dar. Jonas tenta ignorar a carranca da namorada, mas a sensação de desconforto parece encher o espaço como um gás sufocante e uma vozinha esganiçada em sua cabeça diz que é hora de falar algo.

– Está tudo bem?

Ela vira a cara e responde com um grunhido afirmativo pouco convincente.

– Tem certeza?

– Sim. – diz Elisa, secamente.

Jonas respira fundo, porque sabe que a terceira vez é a premiada. Assim como qualquer fenômeno da física ou da química, há muito mais lógica e razão no amor do que geralmente pensamos. Isso porque as emoções carnais que eu mencionava antes, mesmo que às vezes instintivas e pouco controláveis, são frutos de fórmulas muito específicas que regem os comportamentos dos enamorados. “A” mais “b” é igual a “c”. A mesma pergunta repetida três vezes gera uma explosão.

– Você não parece muito bem, o que está acontecendo?

O rosto bonito de Elisa se contorce enquanto ela começa a falar com a voz cada vez mais alta a lista de motivos pelos quais está irritada. Jonas sente cada palavra na carne como uma queimadura e está em parte envergonhado porque reconhece sua culpa em muitas acusações, em parte inconformado de que Elisa passe tanto tempo alimentando a raiva como uma cria, deixando que cresçam tentáculos venenosos que não precisavam estar aí.

– Por que você não me disse nada antes?

– Porque você nunca escuta nada do que eu falo!

Talvez, se eles se dessem um tempo da briga e vissem um ao outro não como uma pessoa rasa e sem coração, se vissem além da superfície de defeitos que têm, e pensassem que realmente estão frente a frente como almas complexas e cheia de linhas e pontos, contornos e precipícios, realmente dois universos de ideias, vontades e passados, a raiva poderia esvair-se e em seu lugar surgiria compaixão. E talvez eles se dessem conta que o chão que estremece pelas palavras raivosas que trocam é o mesmo chão que cada um cruzou em seus vinte e poucos anos de existência, cada passo com uma consequência, cada consequência deixando uma cicatriz, e talvez assim poderiam compreender que são diferentes e que se amam e que é difícil. Mas não é impossível, é claro que não.

Um dia, Elisa e Jonas deram um passo que os levou a uma mesma consequência, num mesmo lugar e tempo, e que deixou uma marca multicolorida nas almas cansadas dos dois. E como um cometa que passa e arrasta no céu a sua cauda de fogo de artifício, o amor atingiu aqueles dois corações de uma maneira cientificamente impossível de duvidar. E as bases daquela ponte invisível que eles decidiram criar dia a dia, juntos, se fincaram com tal força que mesmo que às vezes pareça mais fácil desistir, algo dentro deles diz que deveriam continuar. E não é pela consciência do outro e do entendimento de suas diferenças; é pela simples vontade de estar juntos.

Elisa baixa a cabeça, desgastada de tanto gritar e também com um tiquinho de vergonha, enquanto Jonas coça seu cocuruto como sempre faz quando reconhece que está errado. Quando se olham de novo, há mais serenidade no olhar e pedidos de desculpas silenciosos escapam, dando fim ao buraco negro, que se consome nele mesmo e desaparece sem deixar rastros. E na tenda fria e escura só restam dois corpos que, por inércia, se encontram em um abraço que não parecia querer parar até que estivessem ambos fundidos em um único Big Bang de luz.

Sobre o Autor:

Regiane Folter

Para Regiane, escrever sempre foi uma paixão. De press releases a contos, de notícias a crônicas, por meio das palavras pode transmitir quem é e o que sente.
Mais informações e textos em: https://medium.com/coisinhas-flutuantes

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