Angústia

Hélio Camargo Conceição

Angústia

Hélio Camargo Conceição

Bato o copo no balcão e, aos gritos, peço outra dose. O barman me olha de canto e, não fosse o barulho à minha volta a abafar meu tom, com certeza seria mandado embora. Chega o copo. Viro-o também, sentindo o álcool rasgar a garganta, forçando a tristeza para baixo.

Bato sobre o balcão e peço outra. Horas já passaram e não poucas, pois cheguei quando ainda restavam raios de sol no céu.

-Dia difícil? – O atendente decidiu falar comigo. E eu queria falar com alguém.

-Bastante.

-Problemas com mulher?

-Queria que fosse. – Virei o copo e devolvi, pedindo outra dose. – Antes fossem problemas com mulher. Não… Pior. Problema com o mundo, isso sim. Esse negócio maldito de desigualdade, tristeza, miséria, fome, um vai não vai político, cheio de mentiras e vazio de atitudes. Pessoas lutam pelos seus direitos, mas esquecem dos seus ideais no momento em que adquirem poder. Eu estou com problemas com as ruas, tão cheias de pessoas mendigando, crianças abandonadas, jovens sem rumo, adultos desempregados, desiludidos, dinamitados por um sistema opressor. Estou com problema com todas as pessoas, inertes perante a tristeza, que virou habitual, e a conformidade, que virou padrão. Estou com problema com gananciosos, que aproveitam essa situação para tirar vantagem e se transpor para o lado mais favorecido da balança. Traga outro copo, homem, que hoje eu quero beber. Quem sabe assim eu esqueço desse desatino de vida. – Ao menos foi o que pensei ter dito, mas as palavras saíam em murmúrios esmigalhados por entre meus lábios dormentes.

O cheiro de cigarro inunda o lugar. Não o cheiro de cigarro ao ser tragado, mas aquele que impregna as roupas de cada um que entra e sai do ambiente. As pessoas passam em silêncio. Ninguém conversa, ninguém se conhece, ninguém se ajuda.

-Qual o seu nome? – Deve ser a terceira vez que eu peço o nome do barman. E de novo ele me responde com paciência. – Então, Eric, será que ninguém mais percebe essa tristeza? As pessoas cabisbaixas, encolhidas. Ninguém conversa, ninguém se vê ou se gosta. Gente entra e sai. Ninguém vê que não vale a pena viver assim, só vagando? Que todo mundo pode mais?

-Se for assim, por que não faz você mesmo essa mudança?

-Cale a boca moleque! Não vê que estou falando com o… Eric, é isso? Não vê que estou falando com o Eric? E caia fora antes que eu lhe arrebente. Isso. Já vai tarde. Pode isso, Eric? Esses garotos mal saem das fraldas e pensam que podem dar palpite em conversa de homem. Me vê a saideira aí que eu vou embora, dormir um pouco. Quem sabe em casa eu não acho a resposta?

Ele trás o copo e eu o viro. Bato o vidro no balcão e me levanto devagar, tentando colocar um pé na frente do outro. Despeço-me do barman e gravo na memória que devo perguntar o nome dele depois, por educação. Agora só vou para casa, achar alguma resposta para a vida, quem sabe…

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