Sob Sol e Chuva

Sob Sol e Chuva

Sob sol e chuva

Lucas Alves Serjento

Sob a luz do sol e o molhado da chuva eu me coloco à sua frente. Em meio às gotas d’água eu olho seus olhos, vejo seus lábios. Em meio ao brilho do dia eu sinto: Quero você. Mas não crio coragem para dar um passo à frente, paralisado pelo medo da repulsa. “Covarde” Penso por um instante, mas meu cérebro, em seu modo automático, refuta a classificação com argumentos fracos, mas que consolam por alguns segundos.

-Eu… – gaguejo, penso no que deveria falar ou fazer e luto contra meus sentimentos. Brigo com eles de verdade, em uma batalha interior feroz, empurrando a paixão, afastando o desejo.

-O quê? – ela não faz ideia do que se passa em mim. Ou é isso que minha insegurança me faz pensar. Seus olhos me vêem como amigo ou será que já perceberam o quanto a quero?

-Eu… – repito a palavra em tom baixo, quase um sussurro. A próxima frase escapa esmagada por meus lábios. – Vou por aqui.

É nosso caminho de volta para nossas casas. Somos apenas dois adolescentes voltando da escola juntos e que se separam no caminho. Mas, na minha cabeça, isso toma dimensões enormes, quase como se esse momento fosse parte de um filme. Entre ir para minha casa à direita ou ficar aqui e me declarar antes que ela siga para a esquerda… Escolher entre as duas coisas parece o mesmo que escolher entre dois caminhos sem volta, como se tomar a decisão errada pudesse trazer resultados catastróficos e permanentes para minha vida. Eu não chego a concretizar essas ideias nos poucos segundos que ela me dá antes de responder, mas sinto tais pensamentos roçando minha consciência.

-Tudo bem. – o tom dela é fraco. Seus olhos ainda não desgrudaram dos meus, a chuva ainda cai e molha nossos rostos, mas só serve para que seus cabelos negros caiam, molhados, sobre os ombros e me deixem ainda mais admirado com sua beleza. Será que ela também quer que eu dê um passo à frente? Que pegue em seus braços delicados e a puxe para mim, para acolher seus lábios aveludados nos meus? Não… Acho que não.

-Eu… – irrito-me por soltar a mesma palavra pela terceira vez. Pergunto-me se esse seria o sintoma de um derrame cerebral. – Te vejo amanhã?

-Sim! – ela parece despertar com a frase e se aproxima. Tenciono um pouco por causa da aproximação repentina, ao ver seus traços realçados pela luz solar, mas contenho a surpresa a tempo para que ela não note. Ela me beija na bochecha em um movimento mecânico, rotineiro. No entanto, um pequeno tremor perpassou sua face quando nos tocamos. Estranhei a reação, atípica dela.

Um segundo depois, nos separamos, o corpo dela próximo ao meu. Bastaria meio passo à frente. Era o momento.

Mas eu hesitei e perdi-o. A chuva continuava, pequenas gotas d’água tocam a face dela. Eu queria secá-las só para ter um pretexto para colocar minha mão em seu rosto. Eu a queria, mas não conseguia.

-Tchau. – ela parecia chateada. Não consegui atribuir de imediato a culpa do seu tom à minha atitude, pois estava distraído demais com meus próprios pensamentos. Quando voltei a mim, ela já dera início ao seu percurso para casa.

Eu me odeio. Vejo-a dando os primeiros passos, atravessando a rua e pegando o próprio caminho. Eu continuo paralisado, olhando as costas dela, contemplando a partida da oportunidade pela qual eu tanto esperei. Aperto meus punhos, como se apressasse o resultado desses sentimentos que insistem em lutar, mas não alcançam o encerramento dessa batalha.

Dou um passo, meus membros rígidos voltados para o lado oposto ao que ela seguia. Não quero acabar com a nossa amizade, não quero correr o risco de perdê-la por causa de um impulso, de a afastar porque meus não soube encarcerar o sentimento…

“Ah, dane-se!” é o único pensamento que consigo firmar em minha mente. A única coisa que faz sentido agora. Volto meu corpo para ela e chamo, fazendo com que se vire para me ver, paralisando ao me ver correndo em sua direção.

Dane-se a chuva. Dane-se a segurança que a amizade me dá. Dane-se o sol. Danem-se os riscos, dane-se o mundo. Eu não quero saber deles. Sou só eu sob água e luz, parando na sua frente.

Paraliso diante dela, decidido, sem saber o que fazer. Respiro fundo, mas palavras não me vêm à boca, uma única atitude dominando minha mente. E eu obedeço o pensamento. Em um movimento fluído coloco a mão direita na sua cintura ao mesmo tempo que dou um passo à frente. Ergo minha mão esquerda e coloco sobre seu rosto, passando os dedos sobre sua bochecha. Você teve tempo de reagir, mas não o fez. Apenas me olha nos olhos e eu sei que posso seguir em frente, por mais que a insegurança grite para que volte atrás. Olho nos seus olhos, deslizo a mão esquerda por baixo dos seus cabelos e apoio minha palma em sua nuca, que, lânguida, se entrega à mão. Puxo, devagar, seu rosto para perto do meu. A chuva parece aumentar, acompanhando o volume da tensão que recobre meu ser. Respiro fundo e sorrio sem perceber. Você vê o sorriso e sorri também. Algo dentro de mim comemora. A luta terminou. Eu venci.

Sob a chuva eu puxo seu corpo para cima do meu. Sob o sol nossos rostos se encontram. Sob o sol e chuva outra história se escreve.

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