Quinze Minutos

08

Quinze Minutos

Lucas Alves Serjento

A minha mente borra com as lembranças do passado.

Em meu rosto, uma lágrima solitária traça seu caminho sobre a pele.

Minhas mãos tremem ao segurar a carta. Com uma respiração entrecortada eu permaneço paralisado. Com os olhos parados e olhando para o nada à minha frente eu penso em como pude deixar que tudo chegasse nesse ponto.

Como eu deixei que você se tornasse a minha vida? Eu, tolo, permiti que você se apoderasse de mim por tanto tempo. A maneira inocente como me deixei seduzir e ser usado a seu bel prazer.

A carta escorrega por meus dedos. Vai demorar até que encontre abrigo no solo.

Você foi o primeiro deslizamento da avalanche que soterrou minha felicidade.

O último dos deslizamentos ocorreu quando perdi meu emprego. Eu sei que era um homem de negócios, mas isso nunca foi como pensei em mim no passado. Eu pensava estar fazendo a coisa certa. Porque teria feito diferente? Sempre fiz aquilo que pareceu o correto. O justo. O que nos faria felizes. Em troca, recebi foi uma avalanche que soterrou todas as coisas pelas quais batalhei a vida inteira. Depois que você se foi, nada mais deu certo e o mundo ruiu sob meus pés.

O relógio em meu pulso, insolente, passa pelos segundos sem perguntar se eu estou pronto para isso. Meus olhos encaram seu visor e minha mente percebe sua impotência ante o tempo.

O vento bate forte em meu rosto. Um sorriso débil invade a minha face. Enquanto olho para o nada, alguém percebe a minha presença. A carta encontra o solo, distante da minha mão.

Como parei nesse lugar? Não é minha culpa, é? Eu só fiz o que pareceu correto. O justo.

Eu perdi tudo que tinha depois que você se foi. Não deveria ter sido dessa maneira. Eu não teria me descuidado nas negociações no trabalho se você não tivesse partido. Eu pensei que poderia me manter bem depois da sua saída, mas as coisas não foram assim.

Venha atender a porta, por favor. Isso, muito obrigado. Convidar-me para entrar parece ser o mínimo a fazer depois de ter destruído minha vida, não acha?

-Sente-se, por favor. – a voz autoritária do homem que tomou o meu lugar surge repentinamente à minha esquerda, mas não me assusta. Se ele não estivesse aqui eu não teria vindo nesse horário. Obedeço, enquanto eles me imitam num móvel à minha frente.

Uma bebida? Quanta gentileza. Eu nego não porque não quero beber, mas porque ver seu rosto nojento faria qualquer líquido parecer cacos de vidro rasgando a garganta.

Isso. Olhem-se disfarçadamente, tentando entender o porquê eu apareci depois de tanto tempo que você deixou aquela carta na minha casa.

-Como sabia onde eu estou morando? – não me pergunte com esse olhar de superioridade. Você não passa de uma cadela nojenta que só permanece por perto quando as coisas estão bem. Que foge quando a situação fica difícil.

-Eu pesquisei. – meus olhos ainda estão vermelhos, embora eu tenha enxugado a lágrima. Não me importo com os olhares que ambos trocam ao escutar essa frase.

-Por que está aqui? – novamente a voz dele. Não fale, isso vai acabar apressando as coisas. Contenho o meu ódio tanto quanto posso e olho para o rosto dele com a face mais amigável que consigo projetar.

-Eu gostaria de fazer algumas perguntas a ela. Estive curioso desde que encontrei aquela carta.

-Perguntas? – ela parece surpresa. Eu esperava isso.

-Você sumiu do dia para a noite. Na carta dizia que você tinha se cansado da nossa vida juntos. Isso é pouco específico.

-Eu pensei que seria o suficiente.

Novamente o rosto superior. O que te faz pensar tão insistentemente que é melhor do que eu? Foi porque você foi quem partiu? Ou então você é tão estúpida ao ponto de pensar que a minha vinda até aqui é patética? Por acaso pensa que eu vim pedir desculpas? Que eu vou chorar e pedir o seu retorno?

-Não foi suficiente, caso contrário eu não te procuraria. – não consigo conter uma pequena ponta de grosseria na minha voz. Ela não deixa de recuar um pouco quando a percebe. – Pode esclarecer sua motivação um pouco melhor?

-Eu estava cansada de ser deixada para trás por causa do seu trabalho. Eu precisava ser a prioridade na vida de alguém. Afinal, sempre tive meu próprio trabalho e minhas próprias ocupações, com as quais você nunca se importou. Eu só era algo que você tinha em casa-

-Você não precisa se explicar. – o “outro” olhava para mim, como se me repreendesse. Logo me faria sair. Precisava parecer ser a autoridade na frente dela, caso contrário sua posição como “o grande homem” seria afetada. Não encarei essa atitude como um problema, pois em breve deixaria de ser um obstáculo.

-Eu discordo. – minha voz estava calma novamente. Meus olhos estavam focados na imagem dela. – Eu mereço uma explicação sobre o que motivou a sua saída.

-Eu saí porque ele me deu algo que você não podia.

Respirar fundo. Vamos lá, só mais um pouco.

-Eu fui demitido depois que você foi embora. Sabia disso?

-Mesmo sem o emprego, você ainda é você. E eu não quero você como meu marido.

-Porque você quer… “Ele” como marido. – não pude conter o asco ao dizer a palavra “ele”.

-Vamos. – ele levantou. Meus olhos percorreram a sala por um instante. Era um cômodo apertado. Ele não teria muito para onde ir se eu começasse agora.

-Você me deixou e levou metade do que eu tinha. Em troca, deixou uma carta e sumiu com outro homem, me deixando para trás com todos os problemas e uma vida despedaçada. Eu tive que encarar todos os que eu conhecia me olhando e me conhecendo como o imbecil que foi enganado pela mulher. – ele se aproximou, colocando a mão em meu peito. A vergonha o fez conter a força e eu o ignorei, levantando do sofá e a encarando. O ódio que eu carregava crescia a cada palavra. – Eu não suportei e a única coisa que me restava, minha carreira, foi destruída. Minha família me trata diferente, meus amigos me olham com desprezo e você pensa ser superior a mim.

Eu parei um segundo e olhei para o chão. Ela realmente pensava ser superior a mim. Por que eu não chorava agora? Ri um pouco, meus ombros balançaram ao mesmo tempo em que eu sentia a perda da razão.

-Você superior a mim. É isso o que você pensa também, não é? – a pergunta era para o homem ao meu lado e ele percebeu. Eu continuava olhando para o chão enquanto virava para ele. Com uma mão sobre a boca eu tentava segurar a risada. Ele pensou que eu segurava o choro. A minha outra mão foi devagar até a minha cintura.

Bastava pedir desculpas. Admitir que me enganou. Bastava que ambos tivessem feito o correto. O justo. E eu não teria levado minha mão à cintura.

-Eu… – nem mesmo negar o desgraçado conseguia.

-Olhe para mim! Veja no que você tornou um homem. Eu era alguém normal, tinha uma vida normal. E agora? O que sou eu? – ergui meu rosto para ele, meu riso aberto.

Seus olhos arregalaram quando viu minha expressão. Eu sorria debilmente e podia sentir meu corpo inteiro tremer. A única mão que não tremia era a que estava próxima do estômago dele.

-Espero que você tenha aproveitado enquanto pôde. – ele não entendeu a frase de imediato. Quando olhou para baixo, meu dedo puxava o gatilho.

Um tiro. Dois. Três.

Um grito de mulher em desespero. Dois. Três.

Ela sequer pensou em ajudar o homem. Paralisada pelo medo, viu ele cair aos meus pés. Tomei alguns segundos do meu tempo para olhar o corpo do homem. Ela caiu de costas sobre o sofá em que estive sentado há pouco. Seus olhos, arregalados, encararam meu rosto com temor.

-Não se assuste. Era a única solução correta para tudo isso. – levantei meu tom para que ela pudesse me ouvir. – Vocês me humilharam. Tiraram tudo o que eu tinha: Meu dinheiro, minha honra, meu orgulho e minha posição social. Eu sou generoso. Em troca, vim buscar uma coisa de cada um. Não parece justo para você?

Meu riso sumiu enquanto eu apontava o revólver para o rosto dele. Encarei seus olhos, arrogantes até o fim. Disparei. Que seja arrogante no inferno. Quando olho para o sofá, ela já não está mais sentada sobre ele.

Vamos terminar com isso. Onde está você? A casa é pequena. Eu chequei antes de entrar. Você tem grades nas janelas e somente uma entrada – aquela por onde entrei e pela qual você não pôde sair.

A casa é pequena, mas o som dos tiros certamente chamou a atenção da vizinhança. Teremos poucos minutos para concluir nosso pequeno show. Uma pena, sinceramente. Mas vai ter de servir.

Onde está você? O tempo está passando, sabia? Independente do que acontecer, o relógio nunca para. Ele continuará sua caminhada insolente, segundo após segundo. Acredite, eu já passei por isso.

Onde está você? Será que consegue sentir isso que estou sentindo? Essa paz de quando as coisas começam a se acertar? Tudo isso parece tão… Certo, não acha?

Ela aparece na porta da cozinha. Seus olhos estão fixos em meu rosto e sua mão carrega uma faca. É estranho. Nada no mundo parece fazer som, exceto eu e você. E embora eu esteja aqui para te matar, não posso impedir que uma parte de mim sinta vontade de te abraçar com força. De te olhar nos olhos e dizer que você é minha. Eu quero dizer, mas não irei. Esse olhar de superioridade ainda está no seu rosto. Você partiu e me deixou. Você é a culpada pela minha desgraça e é quem deve pagar. Não importa como eu era ou o que deixava de te dar. Não mereci o que você fez, da maneira como fez. Por isso tenho o direito de fazer isso, da maneira como estou fazendo.

-O que foi? – meus olhos estavam no rosto dela. De pouco me importava sua faca. – Achou mesmo que eu iria ficar sozinho para sempre, chorando porque você partiu? Achou mesmo que ficaria por isso mesmo? Você não pode ser tão burra.

-Você tem razão. Eu estava errada. Nunca pensei que você fosse capaz de fazer algo como isso.

-Bem… – dei de ombros, balançando a mão do revólver. – Você tem que admitir que é engraçado como nós dois continuamos aprendendo coisas novas sobre o outro, mesmo depois de tanto tempo.

Ela cerrou os dentes em uma expressão de ódio.

-Você o matou!

-De que me importa quem morre se você ainda respira? Aquele homem era parte da minha vingança. Ele te tirou de mim, mas podia ter sido qualquer outro que te agradasse o suficiente. O que me interessa é eliminar o personagem insubstituível dessa peça.

-Então é isso? Eu abri a porta e convidei o meu assassino para dentro?

-Eu não sou só isso para você. Nós não somos estranhos um para o outro.

-Isso não faz de você menos assassino.

-Talvez não. Mas faz com que você não seja qualquer vítima.

Eu sabia que aquele era o momento. Ela respirou por um segundo, a faca apontada na minha direção. Ela estava a poucos passos. Eu poderia ter atirado com facilidade. Mas, no momento em que ela avançou, pareceu melhor deixar que ela chegasse até mim. Novamente eu fazendo algo que me parece certo, ainda que seja em favor daquela que causou uma avalanche na minha vida.

Ela enterrou a faca em meu corpo. E, então, eu sinto que as coisas parecem melhorar um pouco. O metal perfurou minha pele, cortando a carne, rasgando as veias, partindo artérias. Sua mão me tocou e meu braço passou por cima dela. Eu sentia dor. Muita. Mas isso não me impediu de fazer nenhum movimento. Eu a abracei. Ela manteve a faca enfiada na minha barriga e não tentou retirar.

Desistindo de me matar? Talvez. Talvez apenas não tivesse forças para matar qualquer um. Talvez fosse muito difícil retirar a faca e repetir o movimento. Não dei muita atenção a isso, pois logo já não importaria mais.

Agarrei-lhe os cabelos e puxei sua cabeça para que ficasse visível. Seus olhos brilhavam com lágrimas que corriam por todo o rosto. Ela não sentia medo. Pelo contrário. O que eu via era puro ódio, o que tornava tudo mais fácil.

-Parece que finalmente nos entendemos. – não pude evitar que minha voz saísse fraca. A facada se fazia sentir.

-Não importa que mentiras você diga a si mesmo. Foi você quem se destruiu.

-Não importa que mentiras você diga. A verdade é uma só.

Um tiro na perna foi o suficiente para fazer com que ela sentisse dor o bastante para se deixar arrastar – pelos cabelos – até a sala. A faca continuava na minha barriga. Estava difícil me movimentar, mas consegui reunir forças para jogá-la no sofá ao lado do corpo do homem. Ela tentou se mover e eu atirei na outra perna. Corria muito sangue da sua ferida. Ela gritou e se lamentou por alguns segundos. Enquanto se recompunha, voltou a olhar para mim com alguma dignidade no rosto.

-Você vai ficar satisfeito com isso?

Meus olhos encaravam os dois sobre o sofá. Sentei-me em outro móvel que estava à sua frente.

-Acabou. – falei, olhando para ela. – Você entendeu? Acabou tudo. Para sempre.

A minha ferida sangrava muito e meus sentidos fraquejavam.

-Acabou. E você está satisfeito com isso?

Eu precisei de um segundo para me recompor da dor da ferida e olhar novamente para o rosto dela. Meu sorriso voltou um pouco enquanto encarava seu rosto.

-Você não entendeu, não é? Não é uma questão de satisfação. É vingança. Pura e simples. Eu precisava acertar a conta pendente que havia entre nós.

-Então acabe com isso. Não é o que você quer? – ela chorava e olhava meu rosto. O soluço em sua garganta atrapalhava a fala. Uma última tentativa de ganhar o argumento. – Não está fazendo o que sempre fez? O certo? O justo? Não é isso que essa mente doentia repete todos os dias, mesmo que custe tudo? Não é isso?!

Eu tinha a resposta pronta. E sabia que ela não seria agradável.

-Sim. – levantei a arma e apontei para sua testa. Daquela distância, certamente acertaria. – É o que eu mais quero nesse mundo.

Ela me olhou e esperou. Eu sabia que ela queria dizer algo antes de ir. Esperei, mas ela não disse nada. Segundos se transformaram em minutos e eu não abaixava o pulso e ela não falava. O barulho de movimentação do lado de fora ficava mais alto.

-Eu… – ela murmurou. Seus olhos enfim secavam. – Eu sinto muito por tudo o que eu fiz.

-Desculpas? Agora?

-Eu sinto muito pelo que fiz. – novamente o olhar orgulhoso dominou seu rosto. Meu dedo tremia sobre o gatilho. – Mas isso não me faz desejar menos que você nunca tivesse aparecido na minha vida. Que um porco louco e descontrolado que não sabe seus limites tenha cruzado meu caminho e que nós tenhamos acabado assim. Eu sinto muito por ter te largado como larguei. Mas não sinto muito por ter te largado. Devia ter feito isso muito antes. Queria ter tido o esclarecimento para nunca ter me casado, para começar. Mas já que casei, estou feliz por ter tido a força para te abandonar e te fazer miserável. Porque isso é o que você merece.

Aí estava.

-Obrigado. Eu realmente te amo, sabia?

Ela não teve tempo de entender a frase antes que eu puxasse o gatilho. Seu corpo inerte caiu sobre o sofá, ao lado do outro.

Recostado sobre a poltrona eu olhava para ambos os corpos, meus olhos embaçados por causa da falta de consciência que começava a imergir. Levantei o braço com o revólver e olhei para o pulso. Quase quinze minutos se passaram desde o momento em que eu toquei a campainha. Aquilo tudo tinha se desenvolvido muito mais rapidamente do que eu imaginei. Com um olhar indiferente, vi tudo ao meu redor: Os móveis desarrumados, o sangue nos corpos, os buracos nos corpos, o sangue no chão e na minha camisa. Eu não retiraria a faca. Era melhor assim.

Acabou.

Tão simples. Tão certo. Tão… Justo.

Não vejo mais lembranças, apenas o presente. Não vejo futuro porque ele não existe.

Levo a arma ao rosto, abro a boca e aponto a ponta do revólver ali. Meu indicador se firma sobre o gatilho.

Eu respiro fundo e lanço um último olhar para a mulher à minha frente.

Eu só queria que você tivesse ficado comigo.

O dedo puxa o gatilho e, de repente, tudo é noite.

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