Entre a Vida e a Morte

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Entre a Vida e a Morte

Celso Naves Esault Jr.

Nos meus últimos momentos, enquanto esperava ressoar a última batida do meu coração, desperdicei meu tempo. Passei aquele pouco de vida que me restava fazendo o que não deveria: Olhando para o nada, cogitando e não agindo, planejando e não fazendo.

Queria ter aproveitado esse tempo para correr atrás da garota que amei, daquela profissão que desejei, daquela posição social que almejei. Queria ter aproveitado meu tempo para reclamar menos, elogiar mais aqueles à minha volta, conversar mais, fazer mais amigos… Talvez, se tivesse feito isso, não estaria em casa no momento que aqueles assaltantes a invadiram.

Entristece-me saber que vou morrer. Banhado em meu próprio sangue, olhando o teto da sala, escuto os ladrões iniciando sua saída pelo corredor. Quanto tempo ficarei estirado no chão até que alguém sinta a minha falta? O barulho dos tiros não foram altos o bastante para causar um escândalo e, hoje em dia, vizinho nenhum se importa com qualquer barulho esquisito, ainda mais na minha vizinhança, que tem familiaridade com tais sons.

De novo: Quem sentirá a minha falta? Por muito penso que meu esforço foi dedicado a afastar as pessoas que tentavam se aproximar de mim, sempre por causa do meu medo de me machucar caso deixasse alguém próximo demais. As poucas que mantive por perto nem são tão próximas assim. Então, quando me encontrarão?

Espasmos involuntários dominam meu corpo. Dói muito perder esse tanto em sangue. Não chamo por socorro porque mal consigo sussurrar uma maldição contra a dor. Minha vista embaça e eu lembro dos rostos de cada um que mantive longe. Lembro das mentiras que contei, das grosserias que fiz, dos modos que adotei. Sinto pena das pessoas que tiveram que me suportar.

Os espasmos param e eu sei que a dor logo vai acabar. Movo um pouco o braço que está largado ao lado do corpo e sinto os dedos nadando em sangue.

Certamente será um enterro vazio.

A batida do coração soa como um bumbo ao lado do ouvido. A força some, o braço desfalece. Meu rosto está voltado para o teto.

Uma última lágrima de arrependimento escorre pelo meu rosto e eu permito que meus olhos se fechem.

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