Páginas em Branco

 

Páginas em Branco

Páginas em Branco

de Lucas Alves Serjento

Descobri hoje que não há mais nada a ser dito.

Que não há mais uma palavra que eu queira dirigir a você.

Foi uma sensação estranha. Engraçada, até. Afinal, até hoje, não conseguia imaginar a minha vida sem esse espaço, onde minhas lágrimas se transformam em palavras e onde meus sorrisos se transformam em pontuações. Até agora, essa página em branco representava a minha totalidade e essa mesma página, quando preenchida por palavras, representava aquilo que nunca pude ser.

Mas descobri, hoje, que não há mais nada a ser dito.

Disse o que havia para dizer. Estranho pensar que, de uma maneira ou de outra, foi tudo dito para você. Por você, através de mim. E a sua influência, essa mão invisível que moldou a massa disforme que era o eu do passado, já não exerce poder sobre mim.

É também, de certa forma, solitário. Acostumei-me à vontade de dizer tudo para todos e soltar gritos aos sete ventos. Já quis declarar meu amor. Meu ódio. Ressentimento. Arrependimento.

Hoje, não há nada mais a ser dito.

E porque será? Não me recordo da exata data em que deixei de me influenciar. Não me vejo mais feliz, também não me vejo mais triste. Apesar de meus esforços, talvez a única certeza que tenho é do quanto estou perdido sem esse norte na bússola da minha vida.

E sem ter o que dizer, o que sou eu? Falo sério. Até agora me deixei definir por sua existência. Dizia: Sou aquilo que escrevo. E agora? Sem ter o que escrever, ainda sinto que sou alguma coisa, mas não vejo forma em mim. Sou uma massa disforme, apática e sem personalidade alguma.

E pensar que desejei o fim dessa influência. Disse a mim mesmo que não valia a pena. Que a dor de tantos sentimentos estava me destruindo.

Pobre de mim. Quanta inocência! Devia saber melhor. Devia saber que minha imaginação, a inspiração e as ideias são uma coisa só e que, para mim, elas são puros sentimentos. Os sentimentos que apenas você é capaz de acordar.

Agora aqui estou eu, sem sentir nada por você. Sem sentir nada por nada.

Sem qualquer coisa a ser dita.

Quero poder voltar. Quero ver o papel e ter muito o que desejar. Sonhos a transformar em palavras. Sair da inania. Porém, até sobre isso sinto que já falei antes. É nisso que me tornei? Uma máquina de repetição? Talvez esteja ainda pior do que pensei. Não só não há mais a ser dito. Estou me repetindo também, voltando ao início do meu círculo.

E pensar que eu desejaria ter desejo. Depois de tanto tempo criando uma casca capaz de me proteger de tudo, creio que nem mesmo eu serei capaz de desfazer tal casca.

E minha descoberta talvez seja absoluta.

Talvez não exista nada mais que eu queira dizer.

E só me restem páginas em branco.

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