O Rei dos Caiporas – Artur Azevedo

Projeto Renascimento 03

O Rei dos Caiporas

Artur Azevedo

– És o rei dos caiporas, e, além disso, não tens a menor parcela de bom senso! Não fosse eu tua mulher, e não sei o que seria de ti, porque decididamente não te sabes governar!
– Exageras, nhanhã!
– Não! não sabes! Tens deixado estupidamente um rol de vezes passar a fortuna perto de ti, sem a agarrar pelos cabelos! Dizem que ela é cega: cego és tu!
– Já vês que a culpa não é minha…
– Quando houve o Encilhamento, só tu não te arranjaste!
– Mas também não me desarranjei…
– Para seres promovido a 1º oficial da tua Repartição, foi preciso que eu saísse dos meus cuidados e procurasse o ministro.
– Fizeste mal.
– Se o não fizesse, não passarias da cepa torta!
– Não quero obscurecer o mérito da tua diligência, mas olha que estás enganada, nhanhã.
– Deveras?
– Redondamente enganada. A nomeação era minha. Quando fui agradecê-la ao ministro, este disse-me: “Não era preciso que sua senhora se incomodasse: o decreto estava lavrado.”
– Pois sim! isso disse ele… E quando o decreto estivesse, efetivamente, lavrado? Á última hora seriam capazes de substitui-lo por outro! Pois se és tão caipora!
– Perdoa, nhanhã, mas não sou tão caipora assim… Pelo menos tive uma grande felicidade na vida!
– Qual foi, não me dirás?
– A de ter casado contigo…
Nhanhã mordeu os lábios, porque não achou o que responder, e naquele dia as suas
impertinências habituais não foram mais longe.
* * *
O pobre Reginaldo – assim se chamava o marido – habituara-se de muito àquelas recriminações insensatas, e era um quase fenômeno de resignação e paciência.
Ela bem sabia que a coisa seria outra, se realmente a fortuna se deixasse agarrar pelos cabelos: o que nhanhã não lhe perdoava era a sua pobreza, – não era o seu caiporismo. Ela não podia ter em casa do marido o mesmo luxo que tinha em casa do pai; não podia rivalizar com alguma amiga em ostentação: era isto, só isto que a afligia, ou antes, que os afligia a ambos, marido e mulher.
* * *
Reginaldo tinha aversão ao jogo; nem mesmo a loteria o tentava.
Entretanto, uma tarde meteu-se num bonde do Catete, para recolher-se à casa, e no Largo do Machado, onde se apeou, pois morava naquelas imediações, foi perseguido por um garoto que à viva força lhe queria impingir um bilhete de loteria, – uma grande loteria de cem contos de réis, cuja extração estava anunciada para o dia seguinte.
Reginaldo resistiu, caminhando apressado sem dar resposta ao garoto, que o acompanhava insistindo; mas de repente lhe acudiu a idéia de que aquele maltrapilho poderia ser a fortuna disfarçada. Era preciso agarrá-la pelos cabelos! Comprou o bilhete, e foi para casa, onde o esperavam os tristes feijões quotidianos.
* * *
Ele bem sabia que, se dissesse a nhanhã que havia feito essa despesa extra-orçamentária, não teria a sua aprovação; mas que querem, – o pobre rapaz era um desses maridos submissos, que não ficam em paz com a consciência quando não contam por miúdo às caras-metades tudo quanto lhes sucede.
Ao saber da compra do bilhete, nhanhã pôs as mãos na cabeça:
– Quando eu digo que tu não tens a menor parcela de bom senso…! Aí está! Dez mil-réis
deitados fora, e tanta coisa falta nesta casa!…
E seguiu-se, durante meia hora, a relação dos objetos que poderiam ser comprados com aqueles dez mil-réis perdidos.
Depois disso, nhanhã pediu para ver o bilhete.
Reginaldo, sem proferir uma palavra, tirou-o do bolso e entregou-lho.
– Número 345! exclamou ela. Um número tão baixo numa loteria de cinqüenta mil números! Isto é o que se chama vontade de gastar dinheiro à toa! Algum dia viste, nessas grandes loterias, ser premiado um número de três algarismos?
Reginaldo confessou que nem sequer olhara para o número. Como o garoto se lhe afigurou a fortuna disfarçada, ele aceitou o bilhete que lhe fora oferecido, entendendo que não devia argumentar com a fortuna.
– 345! Pois isto é lá número que se compre!
– Agora não há remédio.
– Como não há remédio? Põe o chapéu e volta imediatamente ao Largo do Machado: o garoto ainda lá deve estar. Dá-lhe o bilhete e ele que te dê o dinheiro.
– Perdoa, nhanhã, mas isso não faço eu: comprei! Nem o garoto desfazia a compra!
– Ao menos vai trocar o bilhete por outro, que tenha, pelo menos, quatro algarismos! Se tiver cinco, melhor!
– Faço-te a vontade: mas olha que sempre ouvi dizer que bilhetes de loteria não se trocam…
– Faze o que eu disse e não resmungues! Tu és o rei dos caiporas e eu tenho muita sorte!
Reginaldo não disse mais nada: pôs o chapéu, saiu de casa, foi ao Largo do Machado, e voltou com outro bilhete.
Desta vez o número tinha cinco algarismos: 38788; nhanhã devia ficar satisfeita.
Não ficou:
– Devias escolher um número mais variado: o 8 fica aqui três vezes.. – Mas, enfim, 38788
sempre inspira mais confiança que 345…
* * *
Pois, senhores, no dia seguinte o n.0 38788 saiu branco, e o n.0 345 foi premiado com a sorte grande.
* * *
Imagine-se o desespero de nhanhã:
– Então, eu não digo que és o rei dos caiporas?
– Perdoa, nhanhã, mas desta vez não fui o rei: tu é que foste a rainha…
– Cala-te! Se não fosses um songamonga, não me terias feito a vontade! Ter-me-ias roncado
grosso!
– Ora essa!
– Um marido não se deve deixar dominar assim pela mulher!
– Olha que eu pego na palavra…
– Trocar um bilhete de loteria! Que absurdo!…
– Absurdo aconselhado por ti…
– Mas tu já não estás em idade de receber conselhos!
– Bom; de hoje em diante baterei com o pé e roncarei grosso todas as vezes que me
contrariares! Esta casa vai cheirar a homem!…
A boas horas vêm esses protestos de energia!
E exclamando com os punhos cerrados e os olhos voltados para o teto: “Cem contos de réis”!, nhanhã deixou-se cair sentada numa cadeira, e desatou a chorar.
* * *
Mal que a viu naquele estado aflitivo, Reginaldo correu para junto dela, e disse-lhe com muito carinho:
– Sossega. Eu fiz uma coisa… mas vê lá! não ralhes comigo…
– Que foi?
– Não troquei o bilhete!
Não trocaste o bilhete? gritou nhanhã erguendo-se de um salto, com os olhos muito abertos.
– Não! pois eu fazia lá essa asneira! Seria deixar fugir a fortuna, depois de a ter agarrado pelos cabelos!
– Compraste então o outro bilhete?
– Comprei…
– Nesse caso… estamos ricos?
– Temos cem contos.
– Ora, graças que um dia fizeste alguma coisa com jeito!
– Qual! eu continuo a ser o rei dos caiporas.
– Não digas isso!
– Digo, porque se o não fosse, o número 38788 teria apanhado a sorte imediata…
(Correio da Manhã, 16 de outubro de 1904)


Projeto Renascimento

Seleção por Lucas Alves Serjento


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