Momento

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Momento

Por Lucas Alves

Existem poucos momentos na vida em que uma pessoa é capaz de sentir que o tempo foi paralisado.

Um deles é esse. Agora.

Enquanto olho para você, todas as decisões que tomei até aqui não importam mais. Desde as mais simples, até aquelas que pensei que trouxeram dificuldades intransponíveis. Mesmo essa decisão. Agora. Sei que poderia me arrepender dela no futuro. Então porque não deixo tudo como está?

Afinal, você está diante de mim como uma amiga. Numa manhã chuvosa, no fim de uma semana conturbada. E com todos os problemas, não posso deixar de pensar como a vida seria diferente se fôssemos mais que amigos.

E essa dúvida me corrói. O pensamento já não se esconde ao meu comando. E aqui estou, com a água da chuva escorrendo pelos seus cabelos. Escorrendo pelo meu. Enquanto conversamos depois de um encontro por acaso.

Não importa a água e a gripe que posso pegar. Agora, só me importo se você ficará bem. Não me importo se as roupas ficarão molhadas. Porém, agora que nos separamos, me preocupa se as suas podem se molhar.

Sua respiração cria fumaça no ar. Tão estranhamente belas quando comparadas com aquelas que vi em outras ocasiões. A culpa certamente é do seu rosto.

E tudo o que quero é te beijar. Demonstrar o quanto te quero. Posso até arriscar e dizer que isso é amor. Mas não quero assustar, então deveria deixar de falar isso agora-

Mas que diabos! Não consigo decidir. Como saber se o melhor é tê-la como amiga ou correr o risco de não a ter de qualquer modo?

Quero ajuda, mas não há alguém para consultar, pois você é quem eu procuro sempre que tenho uma dúvida. É a melhor amiga que já tive e está na minha frente.

Quero que você me beije. Para que eu não tenha que avançar, tendo risco de fracassar. Sei que é covardia. Mas pudera? O tempo está parado à minha volta e eu não sei o que fazer!

Agora o tempo parece passar, ainda que devagar. Preciso me despedir.

Vejo um brilho em seu olhar. Não sei muito sobre garotas, mas o sorriso me parece dar permissão para dizer o que sinto. Mas… Se você não aceitar…

O pior é o medo de te perder. É o que menos quero no mundo.

Aproximo-me para te abraçar. Como no último ano, quando não demonstrei em momento algum que gostaria de ser apenas um amigo.

-Tchau, Thiago. – Você me diz ao ouvido. O corpo treme. Como posso pensar em amizade?

A água de seus cabelos grudam na minha bochecha. O seu cheiro invade as narinas. É o melhor perfume que já senti.

Afasto um pouco seu corpo do meu e tenho a sensação de que seus braços querem um abraço mais demorado. Interpreto isso como uma imaginação estimulada pelo sentimento. Então afasto o corpo, mantendo meus braços na sua cintura. Afasto-me o bastante para falar:

-Adeus, Daniele…

A reticência não me permite tirar os braços da cintura dela. O tempo paralisa outra vez.

Seus lábios estão na minha frente. Tão belos, tão perfeitos, como se fossem feitos para esse beijo.

-Eu… – Não consigo completar a frase. Ela não reage.

Pela primeira vez nos últimos segundos, olho para seus olhos. Aquelas esferas castanhas e brilhantes. Ela olha para os meus. E nós respiramos juntos.

Que se dane a cautela. Jogo a razão para ar, ciente de que não poderia resistir ao olhar dela. Não dessa distância. Coloco meus lábios contra os dela, ciente de que não posso mais guardar esses sentimentos para mim.

Amigos? Bem, o beijo continua e o tempo não parou outra vez. Depois pensaremos – juntos – no próximo passo. Abraçados como estamos agora, não acho que tudo será como antes.

Ainda bem. Depois de um só momento, parece que as coisas irão mudar para melhor.

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