Miràge

Mirage

Miràge

Celso Naves Esault

Eu vejo… Você.

Mesmo depois de tanto tempo, não há como tirar a sua imagem da minha cabeça. São como filmes sucessivos, passando em frente aos meus olhos de forma interminável, repetindo as memórias que tenho de nós dois.

Preso a essa cadeira e olhando esse céu, vejo seu sorriso. Vejo seus lábios em uma curva ascendente, ressaltando seus olhos brilhantes. Esses círculos azuis, angelicais… É como se eu ainda os visse em frente aos meus.

Eu sinto teu perfume e ouço teu riso. Mesmo depois de todos esses anos, não consigo esquecer, ainda que tente. São lembranças que se agarram a mim e não me permitem soltar seus braços, como uma camisa de força.

Se estender minha mão, poderei tocar seu rosto? Esta varanda é tão solitária sem você. Não a quero, muito menos a casa ou os carros. Lembro-me da promessa de viver a vida que sempre sonhamos enquanto você vivia os últimos momentos na cama de hospital. Na época eu não tinha bens. Carros, casas, dinheiro. Eu não tinha nada e, ainda assim, tinha tudo.

Alguns jamais serão capazes de compreender essas palavras, porque não poderão compreender a maneira como eu te amo. Se eu estou vivo é porque você me fez prometer que teria uma vida depois que você partisse.

A banda da minha vida já parou e já se arruma para partir após seu último concerto.

Nós nos separamos quando eu ainda tinha vinte e sete anos. Depois disso, fiz questão de viver vinte e sete mais. Tornei-me um homem de negócios. Ganhei dinheiro, comprei boas coisas, estabeleci contatos. Vivi a vida que muitos desejariam fazendo o esforço necessário para alcançá-la.

Eu gosto de pensar que a promessa que me fez fazer foi porque queria que eu conseguisse viver plenamente outra vez. Eu sei que você queria que eu me apaixonasse novamente, que tivesse uma nova família depois que a doença te levasse. Durante muitos anos eu acreditei que se tentasse cumprir o seu último desejo eu conseguiria realmente te superar. Talvez eu encontrasse outro amor no futuro tão forte quanto o nosso.

Mas então… Por quê? Por que não consigo te esquecer? Por que ao pensar em você eu não posso parar esses sentimentos, mesmo depois de tantos anos? Por que as lágrimas não param de correr pelo meu rosto e a dor não diminui?

-Me responda… – faz anos que eu repito essas perguntas. Há muito tempo eu estou sentado sobre essa cadeira esperando uma resposta. Há tempo demais eu encaro seu sorriso no céu e me pergunto por que você não responde. – Me responda… – a vontade é de gritar, mas a voz sai fraca. A dor não me permite prosseguir. – Por favor… – e as lágrimas descem novamente.

Eu quero saber por que essa dor não vai embora. Quero saber porque você não me responde. Porque a sua presença não some e porque eu não posso seguir em frente.

Sobre meu colo repousa um revólver. O céu está calmo. Vinte e sete anos sem você. Será que você pode me ver? Será que ainda há a chance de nos encontrarmos? Ou será que o mundo é tão injusto que nem mesmo isso me será dado?

Minhas mãos tremem sobre a arma. Não é o medo da morte, mas o de escolher uma resposta errada. Ao sentir o peso na mão direita, escolho olhar o céu novamente.

“Este é o fim” É só o que posso pensar. Respiro fundo e ponho a arma na cabeça. O frio do metal me faz tremer.

-Me responda. – olho mais firme para o céu por um segundo, encarando as nuvens, com uma expressão sóbria no rosto.

Eu cumpri minha promessa para você.

Certamente a loucura já tomou a minha mente, mas não fará diferença. Tudo o que importa é o seu rosto desenhado no céu. É ele que me chama. É você quem estende os braços para mim.

Já passou da hora de nos encontrarmos.

É estranho como eu não ouço o clique do revólver no momento em que puxo o gatilho. Tudo o que acontece é o sumiço de qualquer luz. Escuridão total. O tempo parece parado. E tudo o que eu vejo no escuro é ela.

E eu sei que isso me bastará.

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