Joguete – Lucas Alves Serjento

Joguete (1)

Joguete

Lucas Alves Serjento

Bernardo sempre foi um garoto normal, andando naquele morno de vida, sem aproveitar as oportunidades de aventura ou assumir riscos, por menores que fossem. Um pobre coitado sem eira nem beira, pobre de dar dó, com aquela beleza tímida, que precisa do dinheiro para brilhar. Mas Bernardo veio de família pobre. E como não cheira nem fede, fica nessa mesma, a levar coices e sair chorando baixo, porque chorar alto não convém.

Mal fala na presença de pessoas novas e está sempre a pensar. Se falasse tanto quanto pensa, seria o homem mais tagarela do mundo. Mas não, precisa ficar no seu canto o tempo todo, remoendo suas ideiazinhas, trancado no seu mundinho. Mas quando desembesta a falar não há ouvidos que lhe bastem pra tanto entusiasmo e ideias contidas.

Um dia desses, seus pais, já cansados da vida, voltaram ao pó e fizeram sua nova casa a sete palmos abaixo dos pés. Bernardo não chorou no enterro e também não fez grandes discursos. Ao invés disso se trancou em casa depois da cerimônia e chorou até dizer chega sem que ninguém soubesse.

Dias depois voltou à sua rotina. Sem os pais para servirem de apoio emocional, agora saía mais, terminou por se enturmar com outros jovens do trabalho. Driblando a depressão que dava os primeiros sinais, usou drogas, bebeu bastante, mas nunca exagerando. Mesmo bêbado o diabo continuava em cima do muro, sempre sopesado, sempre sem exageros, sempre naquele vai não vai eterno.

Bebeu, bebeu, bebeu. Enjoou das drogas, o faziam ficar nublado, ele dizia. Mas beber ele bebia, porque ele continuava igual, ao menos para seus próprios olhos. Um dia, a caminho do trabalho, trombou com uma rapariga. Ela caiu, deixou cair os pertences. Ele, preocupado, pegou tudo o que estava no chão em um desespero tão grande, meio sem reflexos, que ela pensou que estava sendo assaltada. Foi um escarcéu desgraçado. Ela gritou, ele grunhiu, vem homem querendo proteger a moça bonita, para velha curiosa que não tem o que fazer e outra senhora desocupada faz negativa com a cabeça enquanto vê tudo de longe…

Acabou que o Bernardo foi inocentado ali mesmo. Quem olharia aquela cara de bunda mole e diria que ele roubaria tão nas caras? Nem a moça concordaria. Tanto não concordava que aceitou as desculpas dele e, se sentindo culpada pelo mal entendido, acabou o chamando para almoçar. Ele aceitou e daí pra frente é a história mais velha do mundo. Em resumo, os dois jovens acabaram enamorados e, em pouco, noivos. Bernardo continuava arrastando os dias com os cantos da barriga, mas tinha sido promovido no serviço. Ganhava mais, mantinha um estilo confortável de vida e podia dar bons presentes pra noiva. Até moça assanhada farejando dinheiro já estava aparecendo. Mas Bernardo sempre foi moço direito e se manteve firme, mesmo quando a tentação apertou.

Casou por fim. Teve dois filhos e uma penca de gatos. Viveu bem enquanto a idade chegava. Comprou carro, casa, boas roupas. Foi promovido um montão de vezes e seu salário já era de burguês. Viveu sua vida no seu jeito, deixando a banda passar, mas viveu vida boa, vida de homem, como lembraria seu bom pai.

Tinha cinquenta e cinco anos quando morreu de ataque cardíaco. Mulher chorou, amigos lamentaram. O homem que tinha sido café morno a vida inteira agora era guerreiro insuperável, herói incomparável. O enterro foi bonito. A partilha de seu dinheiro depois? Nem perto disso.

Viveu mais ou menos, morreu como gente comum. Mas o interessante é que Bernardo soube durante todo o tempo que a vida é um jogo muito simples, onde se ganha com facilidade contanto que se permaneça na faixa intermediária. FIM.

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