Olhos Vermelhos

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Olhos Vermelhos

Lucas Alves Serjento

Venha e me derrote. Se puder, é claro.

Não me importa a minha roupa suja de sangue ou meu rosto deformado pelas pancadas. Não é como se eu pudesse sentir alguma outra dor alguma vez mais.

Venha, homem. Por que me olha com esses olhos assustados? Talvez eu devesse ter te avisado que em algum momento eu teria de reagir? Ou você pensaria que eu ficaria para sempre sentado no canto, observando você surrar a todos no seu caminho como cordeirinhos enquanto você – como lobo – os destruía?

Não de novo. Não me importo com as feridas ou com as gotas de sangue que caem no chão. Talvez eu devesse me espantar pela faca na sua mão? Ou talvez devesse me importar com o corte na minha barriga? Arde, mas não queima tão forte como o meu ódio por você.

Bêbado de novo? Que me importa agora, isso já não vai mudar mais nada. Você é mais velho, mas com certeza nunca apanhou tanto quanto eu. Ou quanto à mãe. Venha para cima de mim novamente se tem coragem.

O que está vendo nos meus olhos? É o desejo de desafio? Eu sei, estou sentindo isso tão forte dentro de mim que nesse momento eu desejo morrer a continuar sentado. Não me importa quantos golpes eu leve, mas eu te deixarei no chão. E dessa vez você não vai conseguir levantar.

O quê? Pensou que eu estava desarmado? Essa faca é o mínimo que eu agarraria dentre os utensílios que você espalhou pela cozinha. Tente tocar na minha irmã mais uma vez. Eu quero muito que você faça isso. Dê-me um motivo para sair de onde estou para pular nas suas costas e te furar até ficar satisfeito.

Vamos, venha. Pode tomar um momento para respirar fundo. Vamos lá. Eu mostro como se faz.

Inspira, depois expira. Um. Dois.

Vamos comigo. Você também não está cansado de me bater? Talvez fosse melhor acabar logo com esse jogo, não acha? Um homem vivido como você deve estar precisando de algum ânimo para quebrar essa rotina. Bater nos filhos e na mulher não deve mais ser o suficiente.

Olhe nos meus olhos, veja o meu sorriso, velho maldito. E deixe que eu te esfaqueie, por favor. Vou ser rápido, eu prometo.

Isso. Aproxime-se. Mais dois passos e está bom. Eu tenho certeza que você pode dizer que eu vou te atacar. O que está esperando? Por que essa cara surpresa? Pensou que eu me acovardaria por causa da sua “força descomunal”? Lembre-se que você só se acha tão forte quando está aqui, trancado com duas crianças e uma mulher. Venha para mim. Isso. Só mais um passo.

Esse é o olhar que eu estava esperando. O medo. É como me olhar no espelho. Devo estar com um olhar parecido com o seu olhar habitual. Isso é ótimo. É assim que você sempre se sente? Entendo. Essa sensação de poder é viciante mesmo. Mas não pense que eu vou me contentar com apenas um olhar. Eu cheguei até aqui. Eu quero mais. Eu quero tudo.

Não se acovarde. O que é isso, um passo para trás? Não vou deixar diminuir a distância. A parede, homem. Ela está atrás de você agora. Ah, sentiu ela? Isso mesmo. Você não tem para onde correr. O que foi? Eu tenho uma baixa estatura, mas percebeu como a faca na minha mão parece crescer? Não importa se você também tem uma na sua mão. A ferida em minha barriga também dói, mas parece fazer em você um efeito ainda mais maravilhoso.

Vamos, quero acabar com isso. É chegada a hora. Vamos nos matar. Você deveria ter visto isso chegando, não é? Afinal, você é o homem que tem sempre a razão e que nunca erra. Você é aquele que tem de dar a última palavra e cuja percepção do mundo é sempre a correta. Esse é o mundo real, o que você mesmo criou, então não teria como isso ter passado despercebido pelo ser absoluto, não acha?

Isso. Erga a faca. Eu quero isso. Por isso o pulo em sua direção. O que é isto, a sua faca só me raspou no braço? Não importa, meu corpo está sobre o seu. A minha faca enterra na sua barriga. Deve estar ardendo também agora.

Outra e depois outra. Ele me acerta outra vez na altura do peito, mas eu consigo continuar. Meus olhos vidrados em seu corpo não focam novamente. Eu apenas vejo a sombra da imagem do homem que eu já chamei de “Pai”.

Eu continuo. Uma após a outra, um golpe doentio atrás do outro. Meus olhos não relaxam enquanto os braços dele não caem. Então um golpe em sua garganta. Eu deixo a faca lá. Deve ser o bastante. Mas eu não sei dizer se esse desfalecer do meu corpo é o culpado pelo relaxamento da minha mente ou se é apenas a satisfação por ter atingido o objetivo.

Vamos, mãe. Não me olhe assim. A minha irmã não viu nada, não é? Ela está no seu quarto, escondida desde que eu parti para cima dele. Eu escutei você gritando com ela e a removendo da cozinha. Está tudo bem agora. Só não deixe outra pessoa machucar nenhuma de vocês duas. Por favor, nunca mais.

Eu quero dizer isso, mas minha boca não abre. De frente para ela, eu não consigo andar mais e meus joelhos cedem. Minha mente oscila e quando percebo, estou de rosto no chão. O que é isso em minhas mãos? Parece líquido… Deve ser sangue. Afinal, ele golpeou outras vezes.

Sinto o ar me faltar e minha mente embaça.

Finalmente. Um pouco de paz.

Aqui, agora, nesse chão. Como eu não morreria sorrindo?

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