Quinze Minutos

olhos (1)

Quinze Minutos

Por Lucas Alves Serjento

A minha mente borra com as lembranças do passado.

Em meu rosto, uma lágrima solitária traça seu trajeto sobre a pele.

Minhas mãos tremem ao segurar a carta. Com uma respiração entrecortada eu permaneço paralisado. Com os olhos parados e olhando para o nada à minha frente eu penso em como pude ter deixado isso chegar a esse ponto.

Como eu deixei que você se tornasse a minha vida. A maneira como eu, tolo, permiti que você se apoderasse do meu ser por tanto tempo. A maneira inocente como eu me deixei ser seduzido e usado a seu bel prazer…

A carta escorrega pelos meus dedos. Vai demorar até que encontre abrigo em solo.

Você foi o primeiro deslizamento antes da avalanche que se tornou a minha vida inteira. O último dos desmoronamentos ocorreu quando perdi meu emprego. Eu sei que era um homem de negócios, mas isso nunca foi como pensei em mim mesmo no passado. Eu pensava estar fazendo a coisa certa, sempre pensei assim. Mas depois que aquilo pelo que batalhei se foi as coisas mudaram. Nada mais deu certo e o mundo começou a cair sobre as minhas costas.

O relógio em meu pulso insolentemente passa pelos segundos sem me perguntar se eu estou pronto para isso. Meus olhos encaram seu visor e minha mente percebe sua impotência contra o tempo.

O vento bate forte em meu rosto. Um sorriso meio débil invade a minha face. Enquanto olho para o nada percebo que alguém começa a perceber a minha presença. A carta parece encontrar o solo há muitos metros de distância.

Como eu vim parar aqui? Não é minha culpa, é?

Eu perdi tudo o que eu tinha depois que você se foi. As coisas poderiam ter ido bem, eu não teria me descuidado nas negociações no trabalho se você não tivesse partido. Eu realmente pensei que conseguiria me manter depois que você saiu, mas não foi isso o que aconteceu.

Venha atender a porta, por favor. Isso, muito obrigado. Convidar-me para entrar parece ser o mínimo que você faz por mim depois de ter destruído a minha vida, não acha?

-Sente-se, por favor. – a voz autoritária do homem que tomou o meu lugar surge repentinamente à minha esquerda, mas não me assusta. Se ele não estivesse aqui eu não teria vindo agora. Obedeço, enquanto eles me imitam em um móvel à minha frente.

Uma bebida? Quanta gentileza. Eu nego não porque não quero beber, mas porque ver seu rosto nojento faria qualquer líquido parecerem cacos de vidro na minha boca. Isso. Olhem-se disfarçadamente, tentando entender o porquê eu apareci depois de tanto tempo depois que você deixou aquela carta na minha casa.

-Como sabia onde eu estava morando? – não me pergunte com esse olhar de superioridade. Você não passa de uma cadela nojenta que só quer estar por perto quando lhe convém.

-Eu pesquisei. – meus olhos ainda estão vermelhos, embora eu tenha enxugado a lágrima. Não me importo com os olhares que ambos trocam ao escutar essa frase.

-Por que está aqui? – novamente a voz dele. Não fale, isso vai acabar apressando as coisas. Contenho o máximo que posso o meu ódio e olho para o rosto dele com a face mais amigável que consigo.

-Eu gostaria de fazer algumas perguntas para ela. Estive curioso desde que encontrei aquela carta.

-Perguntas? – ela parece surpresa. Eu esperava isso.

-Você sumiu do dia para a noite. Na carta dizia que você tinha se cansado da nossa vida juntos. Isso é pouco específico.

-Eu pensei que isso seria o suficiente.

Novamente o rosto superior. O que te faz pensar tão insistentemente que é melhor do que eu? É o fato de que foi você quem partiu? Ou então você é tão estúpida ao ponto de pensar mesmo que porque eu vim aqui isso me faz patético?

-Não foi, caso contrário eu não te procuraria. – não consigo conter uma pequena ponta de grosseria na minha voz. Ela não deixa de recuar um pouco quando a percebe, mas decide se explicar um pouco.

-Eu estava cansada de ser deixada para trás por causa do seu trabalho. Eu precisava ser a prioridade da vida de alguém. Eu sempre tive meu próprio trabalho e as minhas ocupações e você nunca se importou com nada. Eu só era algo que você tinha em casa-

-Você não precisa se explicar. – o “outro” olhava para mim como que me repreendendo. Logo ele me faria sair. Precisava parecer ser a autoridade na frente dela, caso contrário sua posição como o ser maioral seria afetada. Isso não me atrapalharia, eu não sairia dali antes daquilo acabar.

-Eu discordo. – minha voz estava calma novamente. Meus olhos estavam focados na imagem dela. E os seus olhos sabiam que eu tinha mais.

-Eu saí porque ele me deu algo que você não podia.

-Eu fui demitido depois que você foi embora.

-Isso não importa. Você ainda é você. E eu não quero você como meu marido.

-Porque você quer… Ele como marido. – não pude conter a carregada na palavra “ele”.

-Vamos. – ele levantou. Meus olhos percorreram a sala por um instante. Era um cômodo apertado. Ele não teria muito para onde ir se eu começasse agora.

-Você me deixou e levou metade do que eu tinha. Em troca, deixou uma carta e sumiu com seu amante, me deixando para trás com todos os problemas e com uma vida despedaçada. Eu tive que encarar todos os que eu conhecia me olhando e me conhecendo como o imbecil enganado pela mulher. – ele se aproximou, colocando a mão em meu peito. A vergonha o fez conter a força e eu o ignorei, levantando do sofá e a encarando. O ódio que eu carregava crescia a cada palavra. – Eu não suportei e a única coisa que me restava, minha carreira, foi destruída. Minha família me trata diferente, meus amigos me olham com desprezo e você se pensa superior a mim.

Eu parei um segundo e olhei para o chão. Ela realmente se pensava superior a mim. Por que eu não chorava agora? Eu ri um pouco, meus ombros balançaram ao mesmo tempo em que eu sentia a perda da razão.

-Você superior a mim. É isso o que você pensa também, não é? – a pergunta era para o homem ao meu lado e ele percebeu. Eu continuava olhando para o chão enquanto virava para ele. Com uma mão sobre a boca eu tentava segurar a risada. Ele pensou que eu segurava o meu choro. A minha outra mão foi devagar até a minha cintura.

-Eu… – nem mesmo negar o desgraçado conseguia.

-Olhe para mim! Veja no que você tornou um homem. Eu era alguém normal, tinha uma vida normal. – ergui meu rosto para ele, meu riso aberto.

Seus olhos arregalaram quando ele pôde ver minha expressão. Eu sorria debilmente e podia sentir meu corpo inteiro tremendo. A única mão que não tremia era a que estava próxima do estômago dele.

-Espero que você tenha aproveitado enquanto pôde. – ele não entendeu a frase de imediato. Quando olhou para baixo, meu dedo puxava o gatilho.

Um tiro. Dois. Três.

Um grito de uma mulher em desespero. Dois. Três.

Ela sequer pensou em ajudar o homem. Quando tomou uma atitude foi correr para a cozinha. Eu tomei alguns segundos do meu tempo para olhar para o corpo do homem. Ele caíra de costas sobre o sofá que eu estivera sentado há pouco. Seus olhos, arregalados, encararam meu rosto com temor.

-Não se assuste. Era a única solução para isso tudo. – levantei meu tom para que ela pudesse ouvir também. – Vocês me humilharam. Tiraram tudo o que eu tinha: Meu dinheiro, minha honra, meu orgulho, minha posição social. Eu sou generoso. Vim tirar apenas uma coisa de cada um, isso não parece justo?

Meu riso sumiu enquanto eu apontava o revólver para o rosto dele. Encarei seus olhos, arrogantes até o fim. Disparei. Que seja arrogante no inferno agora.

Vamos terminar com isso. Onde está você? A casa é pequena. Eu chequei antes de entrar. Você tem grades nas janelas e somente uma entrada, aquela pela qual eu entrei. A casa é pequena. O barulho dos tiros chamou a atenção da vizinhança, com certeza. Teremos poucos minutos, mas não se preocupe. Isso será suficiente para o nosso show.

Onde está você? O tempo ainda está passando, sabia? Independente do que acontecer o relógio vai continuar passando insolente sobre os segundos e minutos e horas. Acredite, eu já passei por isso.

Onde está você? Será que consegue sentir isso também? Essa paz de quando as coisas começam a se acertar? Tudo isso parece tão… Certo, não acha?

Ela aparece na porta da cozinha. Seus olhos estão fixos em meu rosto e sua mão carrega uma faca. Nada parece fazer som nenhum à nossa volta. E embora eu esteja aqui para te matar, não posso impedir que uma parte de mim sentisse a vontade de ir até você e te abraçar com força. De te olhar nos olhos e pensar que você é minha. Eu quero dizer isso, mas não irei. Esse olhar de superioridade ainda está no seu rosto. Você partiu e me deixou. Você é a culpada pela minha desgraça e é quem deve pagar. Não importa como eu era. Eu não merecia o que você fez, da maneira como fez.

-O que foi? – meus olhos estavam no rosto dela. De pouco me importava sua faca. – Achou mesmo que eu iria ficar sozinho para sempre, chorando porque você partiu? Achou mesmo que ficaria por isso mesmo? Você não é tão idiota…

-Você tem razão. Eu estava errada. Eu nunca pensei que você fosse capaz de fazer algo como isso.

-Bem… – dei de ombros, balançando a mão do revólver. – Acho que todos aprenderam um pouco mais um sobre o outro recentemente, então.

Ela cerrou os dentes em uma expressão de ódio.

-Você o matou!

-De que me importa quem morre enquanto você ainda respira? Aquele homem era parte da minha vingança. Ele te tirou de mim, mas podia ter sido qualquer outro que te agradasse o suficiente. O que me interessa é eliminar o personagem insubstituível dessa peça.

-Então eu abri a porta para o meu assassino?

-Eu não sou só isso para você. Nós não somos estranhos um para o outro.

-Isso não faz de você menos assassino.

-Talvez não. Mas faz com que você não seja qualquer vítima.

Ela parou de falar e eu soube que era aquele o momento. Ela respirou por um segundo, a faca apontada na minha direção. Ela estava a poucos passos, eu podia ter atirado.

Mas no momento em que ela avançou, pareceu muito melhor deixar que ela chegasse até mim.

E no momento em que ela enterrou a faca em mim eu senti que as coisas acabaram de melhorar. O metal perfurou minha pele e chegou ao meu interior. Sua mão me tocou e meu braço passou por cima dela. Eu sentia dor. Muita. Mas isso não me impediu de fazer nenhum movimento. Eu a abracei. Ela manteve a faca enfiada na minha barriga e não tentou tirá-la.

Desistindo de me matar? Talvez. Talvez apenas não tivesse forças para matar qualquer um ou retirar a faca fosse difícil demais. Nada disso importava, de qualquer forma.

Agarrei-lhe os cabelos e puxei sua cabeça para que me ficasse visível. Seus olhos brilhavam com lágrimas que também lhe corriam por todo o rosto. Ela não sentia medo. Pelo contrário. Era puro ódio o que eu via ali e isso facilitava tudo.

-Finalmente parece que nós nos entendemos. – não pude evitar que minha voz saísse fraca. A facada estava se fazendo sentir.

-Não importa que mentiras você diga para si mesmo. Foi você quem se destruiu.

-Não importa que mentiras você diga para mim. Não vai mudar o que eu penso.

Um tiro na perna foi suficiente para fazer com que ela sentisse dor o bastante para se deixar arrastar pelos cabelos até a sala. A faca continuava na minha barriga. Estava difícil de me movimentar, mas consegui reunir forças para jogá-la no sofá ao lado do corpo do homem. Ela tentou se mover e eu atirei na outra perna. Corria muito sangue da sua ferida. Ela gritou e se lamentou por alguns segundos. Enquanto se recompunha voltou a olhar para mim com alguma dignidade.

-Você vai ficar satisfeito com isso?

Meus olhos encaravam os dois sobre o sofá. Sentei-me em outro móvel que estava à sua frente.

-Acabou. – falei olhando para ela. – Você entendeu? Acabou tudo.

A minha ferida sangrava muito e meus sentidos fraquejavam um pouco.

-Acabou. E você está satisfeito com isso?

Eu precisei de um segundo para me recompor da dor da ferida e olhar novamente para o rosto dela. Meu sorriso voltou um pouco enquanto encarava seu rosto.

-Você não entendeu, não é? Não é uma questão de satisfação. É vingança. Pura e simples.

-Então acabe com isso. Não é o que você quer? – ela chorava muito olhando meu rosto. A resposta não lhe agradara.

-Sim. – levantei a arma e apontei para a testa dela. Daquela distância eu acertaria sem dúvidas. – É o que eu mais quero nesse mundo.

Ela me olhou e esperou. Eu sabia que ela queria dizer algo antes de ir. Esperei, mas ela não disse nada. Segundos se transformaram em minutos e eu não abaixava o pulso e ela não falava. O barulho de movimentação do lado de fora ficava mais alto.

-Eu… – ela murmurou. Seus olhos estavam enfim secando. – Eu sinto muito por tudo o que eu fiz.

-Desculpas agora?

-Eu sinto muito pelo que eu fiz. – novamente o olhar orgulhoso voltara. Meu dedo tremia sobre o gatilho. – Mas isso não me faz desejar menos que você nunca tivesse aparecido na minha vida. Que um porco louco e descontrolado que não sabe seus limites tenha cruzado meu caminho e que nós tenhamos acabado assim. Eu sinto muito por ter te largado como larguei. Mas não sinto muito por ter te largado. Devia ter feito isso muito antes.

Aí estava.

-Obrigado. Eu realmente te amo, sabia?

Ela não teve tempo de entender a frase antes que eu puxasse o gatilho. Seu corpo inerte caiu sobre o sofá, ao lado do outro.

Recostado sobre a poltrona eu olhava para ambos os corpos, meus olhos embaçados por causa da falta de consciência que começava a imergir. Levantei o braço com o revólver e olhei para o pulso. Quase quinze minutos se passaram desde o momento em que eu tocara a campainha. Aquilo tudo tinha se desenvolvido muito mais rapidamente do que eu imaginara. Com um olhar indiferente ao meu redor pude ver os móveis desarrumados, o sangue nos corpos, os buracos nos corpos, o sangue no chão e na minha camisa. Eu não iria tirar a faca, era melhor assim.

Acabou.

Tão simples. Tão… Certo.

Não vejo mais lembranças, apenas o presente. Não vejo futuro porque ele não existe.

Levo a arma ao rosto, abro a boca e aponto a ponta do revólver para o céu da boca. Meu indicador firma-se sobre o gatilho.

Eu respiro fundo e lanço um último olhar para a mulher à minha frente.

Eu só queria que você tivesse ficado comigo…

O dedo desce sobre o gatilho e de repente tudo é noite.

Anúncios

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.