Os Karas – Uma Opinião Sobre

Os Karas

Uma Opinião Sobre:

Série “Os Karas” – Livro I: A Droga da Obediência, por Pedro Bandeira

Esse texto não tem por objetivo analisar exaustivamente a obra, mas fazer uma breve abordagem intuitiva sobre os diversos aspectos de uma obra divertida e altamente recomendada para servir de introdução ao mundo da literatura.

Opinião de Lucas Alves Serjento

Eu era uma criança em um dia de aula durante a quarta série do ensino fundamental, estudando em uma escola municipal, quando minha turma recebeu os kits de literatura da prefeitura. Esses kits continham diversas combinações de três livros com o objetivo de incentivar a leitura de obras através da apresentação de textos infanto-juvenis.

Minha professora da época (professora Carla, a quem devo muito) era fã da obra de Pedro Bandeira e tinha em mim algum carinho, que lhe serviu de incentivo para separar um kit com o livro “A Droga da Obediência”, para que eu pudesse aproveitar da mesma experiência que ela aproveitou quando descobriu essa pérola da literatura nacional. Eu, que já tinha algum apreço à literatura graças ao incentivo de meus pais e avós, acabei por dedicar meus próximos dias àquela leitura.

E o que aconteceu nos dias seguintes foi uma transformação da minha forma de encarar a literatura. Até então, as obras que tinha tido a oportunidade de ler eram aqueles obtidas por meus pais – que eram, em sua maioria, obras destinadas ao público mais adulto e com um linguajar, para o “eu” da época, antiquado. Obras de séculos passados, eternizadas pelo apreço cultural e que, hoje, sou muito mais capaz de compreender em sua completude (ainda que não necessariamente o faça). Minha alternativa até então eram os quadrinhos, que, apesar de muitas vezes educativos e divertidos, não tinham cunho exclusivamente literário, além do quê, muitos deles, elaborados na década de 90 e trazidos ao Brasil por traduções, acabavam contendo muitos clichês e sequências de ação repetitivas, numa época que é reconhecida até hoje como a pior época para os quadrinhos americanos.

Por isso, o primeiro capítulo da saga d’Os Karas não foi apenas uma diversão momentânea. Foi muito mais que isso. Ela se tornou a expansão dos meus horizontes para a compreensão de que a literatura pode ser mais do que um passatempo secundário, realizado quando não é possível se distrair com jogos ou filmes, mas que poderia ser algo desfrutado como atividade principal, independentemente da idade do leitor. Eu, uma criança de nove anos, vi-me completamente imerso nas aventuras dos jovens estudantes do colégio Elite. E que privilégio! Hoje, anos depois, ainda vejo esse livro com um carinho diferenciado e a reconheço como maior influência na minha formação como escritor. O sentimento que tive ao acompanhar essa primeira história é algo incomparável e, hoje, se pudesse reproduzir isso em uma única pessoa, poderia acabar minha carreira com a sensação de dever cumprido.

O interessante a esse respeito é que o próprio livro não se esforça nesse sentido. Ao invés de focar em passagens épicas para impressionar ou em falar com o público jovem com uma linguagem forçada, a fim de criar uma ligação, Pedro Bandeira se dedica mais a criar os personagens com carinho e, com poucos detalhes, constrói toda a vida deles em uma escola que soa muito viva e real até hoje – embora seja um livro ambientado na década de 80.

A Droga da Obediência conta a história do colégio Elite, uma instituição de ensino muito organizada e que tem orgulho de contar com os melhores estudantes das redondezas. O dia-a-dia da instituição é ameaçado quando uma onda de desaparecimentos de estudantes na cidade faz a sua primeira vítima do colégio Elite.

Com o desaparecimento do aluno, Miguel, o presidente do grêmio estudantil, mobiliza Os Karas, um pequeno grupo com os melhores alunos da escola, que se reúnem, até então, com o objetivo de realizar pequenas mudanças nos seus arredores – sempre em segredo. O próprio grupo, num primeiro momento, se intimida diante da alteração drástica de sua “zona de atuação”, mas Miguel, um líder nato, convence os amigos de que um pouco de trabalho investigativo só poderá ser benéfico na atual conjuntura dos fatos.

Esse grupo é formado por cinco membros: Miguel, o líder e figura de autoridade no grupo, exemplo não apenas de disciplina, mas também de raciocínio lógico e rápido, além de ser não apresentar nenhuma característica fraca em outros campos (como porte físico, por exemplo);

Outro personagem dessa turma é o jovem Calu, um rapaz cujas capacidades de teatro se destacam mesmo dentro dessa escola. As especialidades de Calu não se limitam à aparência acima da média e atuação convincente, mas também nas técnicas de manipulação de aparência por maquiagem, adaptação em cenários de improvisação, etc.

As leitoras têm por representante do sexo feminino um único membro: Magrí. Ela é membro integrante do clube de vôlei da escola e reconhecida como o membro mais atlético do grupo. Ela soma agilidade, força e velocidade como nenhum dos demais, sem nunca perder a feminilidade. Além disso, também demonstra compaixão acima da média e uma beleza que impressiona a todos.

O último dos membros fundadores do grupo é Crânio (um dos meus dois personagens favoritos). Crânio é o tradicional nerd, porém, com traços daquilo que entendemos, atualmente, por “geek”. Ele é visto por todos como o membro mais inteligente do grupo e é capaz das ideias mais bem elaboradas. Sua capacidade de raciocínio é tão boa que se torna evidente a necessidade de a história, por vezes, afastá-lo da ação, para que não encontre pequenas possibilidades em meio ao caos das situações. Sua fraqueza, no entanto, reside na própria personalidade, uma vez que a inteligência atribui alguma frieza aos gestos do personagem, que tem uma pequena dificuldade de estabelecer diálogo com os outros personagens. O interessante aqui é a quebra de paradigma da imagem do “nerd” em uma obra escrita por um brasileiro, décadas antes desse ser o “trading” no meio do entretenimento.

O membro caçula desse grupo é Chumbinho, um jovem com facilidade de manipulação de dispositivos eletrônicos e ótima capacidade de dedução. Ele se apresenta como uma espécie de “mascote”, com uma vivacidade e atitudes marcantes, além de ostentar valentia e esperteza desde o primeiro momento. Extremamente carismático e com habilidades que se apresentam no decorrer da narrativa, Chumbinho rapidamente se torna o personagem favorito da maior parte dos leitores.

(Leve Spoiler adiante) Além disso, é a primeira pessoa a desvendar a existência do grupo d’Os Karas.

(Fim do Spoiler)

Para não estragar as surpresas, não vamos descrever os personagens secundários e seus papéis (muito importantes) no decorrer da narrativa. Basta ressaltar que esses personagens não são meros enfeites bidimensionais, mas pessoas reais, com verdadeiras motivações e que acreditam fazer o que é certo. Isso com um livro bastante curto e diversas características aparentemente eliminadas da obra final para que o próprio leitor tire suas conclusões.

A trama, que começa como uma leve peça de brincadeira, com um grupo de adolescentes com seu clube de investigação, logo se torna uma obra de ação com passagens onde realmente há algo em jogo e de uma maneira que, embora fantasiosa, mantém a ponta dos pés no chão, permitindo a imersão do leitor.

O antagonista, apesar de ter um nome bastante infantilizado – Doutor Q.I. – tem a alcunha justificada justamente pelo público-alvo da obra. Além disso, suas motivações se apresentam como razoáveis e, num mundo onde moral e comportamento são cada vez mais escritas em pedra como é o nosso, seus argumentos apenas se tornam mais atuais.

A Droga da Obediência cumpre com facilidade o papel de uma obra introdutória: Ela apresenta personagens, suas personalidades, introduz uma discussão social válida, possui personagens secundários interessantes e se encerra sem ganchos, deixando para o leitor a decisão de continuar ou não acompanhando as aventuras d’Os Karas.

E, com a diversão e qualidade dessa obra, é difícil encontrar alguém que não queira.

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