Declaração

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Declaração

Lucas Alves Serjento

Eu nunca fui bom em finalizações. Meu forte sempre foi iniciar e desenvolver. Terminar? Nem tanto.

Isso se aplica a tudo. Relacionamentos, amizades, discursos. E, a princípio, é algo bom em diversos aspectos. Eu consigo pegar as pessoas pela mão e iniciar uma linha de raciocínio. Instigar conversas e discussões. Iniciar amizades e fazer as pessoas se interessarem. Não é tão bom em outros aspectos. Relacionamentos, por exemplo. Ao menos eu gosto de pensar dessa maneira. Faz com que não seja minha culpa se não consigo te esquecer. É uma deficiência, não preguiça. Não é covardia, mas algo em meu cérebro que jamais poderei mudar. Significa que essa dor que sinto toda vez que a vejo não passa de um maldito aspecto biológico.

Será que alguém já sentiu dor assim? Ou sou eu o anormal? Como é possível que todo mundo seja tão bem ajustado enquanto eu me sinto a pior aberração do planeta, com esses sentimentos bizarros e essa mente que não esquece? Porque eu não posso te esquecer? Porque tenho que sofrer, ainda que saiba com toda a minha racionalidade que nós dois nunca vamos acontecer? Que nada vai mudar? Que eu ficarei atrás desse maldito teclado digitando palavras em vão? Palavras que você nunca vai ler? Que talvez ninguém nunca vá ler?

Porque eu não consigo botar um ponto final em nós? Em mim?

Porque “nós” não é um termo adequado. Não serve para representar essa maldita paixão platônica que dura mais de uma década. E tudo porque eu nunca tive coragem de te dizer o que sinto. Porque eu me acomodei e quis que o meio continuasse. Sempre com medo daquele ponto final.

Como posso escrever uma história se a minha própria nunca vai para frente? Como se supõe que eu siga em frente se uma única foto sua destrói dez anos de recuperação? Porque meu coração ainda acelera ao ver o seu sorriso? Eu não entendo! Eu só quero te esquecer! Voltar para aquele vazio de não amar ninguém. Eu não quero te amar. Eu quero ficar irritado com você. Quero ser tão cético com a sua existência quanto sou com a existência de todo mundo. Quero sentar com você em uma mesa e te explicar que você me quebrou. Que tudo o que eu sou é uma fração. Que eu sou um pedaço da peça que já compus.

E nós nunca estivemos juntos para começo de conversa! A culpa sequer é sua! A culpa é minha e dessa mente desajustada!

Eu sequer posso conversar com alguém a respeito disso, porque significa que outras pessoas tomarão isso para elas, como se fosse uma indireta. Mal sabem que jamais conheceram o “eu” completo. Somente você. E eu não tive coragem. Como não tive coragem? Por quê?

Olha só o que eu fiz comigo mesmo. Minhas mãos tremem, meus olhos enchem de lágrimas.

E eu, tolo, pensei ter te esquecido. Pensei estar seguindo em frente. Mas a verdade é que eu não sei como fazer isso. Minha mente parece estar presa no passado. Sinto que uma parte minha morreu e eu não consigo fazê-la renascer. Como outra pessoa pode fazer isso sem sequer desejar o mal? Eu sequer tenho uma chance de me recuperar? Será que algum dia eu vou te esquecer? Será que não amar é mesmo a resposta? Porque eu já não sei mais. Eu só quero que a dor pare. Que fique tudo bem. Eu quero ser como todo o mundo. Deixar de ser esse arremedo de homem, escondido atrás de livros e fantasias, incapaz de encarar a realidade. Eu sou um viciado. Viciado em ilusões e sonhos. Eu sei disso, mas como me curar dessa doença? Parece simples, não é mesmo? Eu só preciso sair mais. Conversar mais. Ter mais amigos. Conversar com mais mulheres. Segundo a crença popular, eu deveria ficar bem, não é isso?

Então por quê? POR QUÊ?!

Eu sinto ódio porque quero sentir pena de mim mesmo. Quero ficar nessa cadeira, escrevendo palavras vazias. Eu me alimento dessa porcaria. A minha vida é assim. Sinto ódio do universo por me permitir ser dessa maneira – e por precisar culpar alguém para me sentir melhor.

Pronto. Aí está. A minha alma, o meu maior segredo. O motivo pelo qual eu acho- Não. O motivo pelo qual SEI que sou uma fraude. Provavelmente, em alguns minutos, sequer sentirei raiva. Voltarei a ser um arremedo sem sentimentos. Um fragmento. A peça que não encaixa, a engrenagem que não funciona. Serei o rapaz quieto no canto da classe, o anti social, o homem sério. Quantos rótulos são necessários para definir o indefinível?

Sabe o que é pior que esse silêncio em minha mente? Essa inania? É que a resposta nunca chega. Eu sei, porque esperei por ela. Pensei que viria com a idade. Afinal, com o fim da adolescência, espera-se que a racionalidade chegue, não é mesmo? Que deixemos de ser crianças? Não é isso o que todo maldito adulto apregoa quando se tem um problema durante a infância? Que “você ainda é muito novo”, “são problemas de criança”, etc.

Pois bem. Eu estou esperando que as respostas brotem do chão há alguns anos. Onde elas estão? Eu não as vi e não parece que surgirão num futuro próximo. Só o que tenho são mais responsabilidades e problemas. Mais perguntas. A diferença é que agora todos supõe que eu tenha as malditas respostas. Ninguém parece entender que eu não as descobri e, infelizmente, ninguém parece disposto a entregá-las.

Enquanto isso fico assim, esperando. Talvez um dia desista de procurar e me torne um miserável, como todos parecem desejar que eu me torne.

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