Lamentações – Celso Naves Esault

Lamentações

Lamentações

Celso Naves Esault

Talvez, se tivesse saído de casa um minuto mais cedo, isso não tivesse acontecido.

Talvez, se tivesse aguardado mais alguns minutos, não estivesse aqui agora.

Deveria ter dado um abraço decente em minha esposa. Podia ter beijado seu rosto, seus lábios, seu pescoço… Chegar atrasado não seria um problema.

Eu gastaria o tempo que fosse ao seu lado se soubesse o que aconteceria.

Existem palavras de desculpas que possam te consolar? Ou seria eu um desgraçado que arruína a vida da pessoa amada porque não pode se cuidar sozinho?

Talvez, se tivesse acordado no horário certo e não em cima da hora – como sempre -, ou então se tivesse me atrasado de verdade ao invés de acreditar que teria tempo suficiente… Em qualquer desses casos eu não estaria aqui, sem força em meu corpo, com pernas que não movem e braços que não mexem.

Queria muito ter ficado ao seu lado e pensado menos em trabalho. Teria priorizado nossa vida juntos, construiria uma família feliz ao seu lado e não pensaria na minha carreira primeiro. Faria menos dinheiro, mas certamente não ficaria tão frustrado agora, com o rosto colado no asfalto.

Procuro meios de me levantar, mas não os encontro. Por causa disso meu corpo continua jogado sobre o chão da avenida. Nem mesmo parar os pequenos espasmos eu posso, tomado por uma dor inconveniente que nubla meus pensamentos e um torpor que me paralisa o corpo. Lembranças embaçadas passam diante de meus olhos enquanto desisto das débeis tentativas de me erguer.

Eu não queria estar aqui agora. Deitado sobre meu próprio sangue, cercado de estranhos que desejam entender o que acontece comigo. Na verdade, eu não queria que ninguém estivesse aqui. A única pessoa que eu queria aqui era você.

Por que eu? Por que agora? Não podia ter sido depois que eu te desse a vida que merecia? Agora eu vou morrer deitado no asfalto, longe de você, pensando em como isso vai te afetar, lamentando o futuro que não teremos.

Ouvi dizer que a vida passa diante dos nossos olhos quando morremos. Não digo vi a vida inteira, mas os momentos mais importantes estavam lá. Vejo o rosto de meus pais e da minha pequena irmã. Sinto o aroma do café-da-manhã em família de quando era um garoto. Vejo o rosto dos amigos da escola, ouço as vozes das crianças brincando na rua. Lembro-me das risadas de todos aqueles que abandonei quando vim para outra cidade em busca das corporações. Vejo seus rostos orgulhosos quando sabem que estou me formando na faculdade e que conquistei uma vaga de emprego. Lembro-me de suas ligações durante o ano pedindo o meu regresso para uma visita e minhas esquivas pouco convincentes. Sinto a distância que aumenta e as trevas que me tomam enquanto minha vida é consumida por um mundo que eu não sabia que poderia ser tão solitário.

Então eu vejo o rosto dela novamente. Seus olhos, sua boca, seus cabelos. Um rosto que estaria presente em todas as mudanças que eu precisava passar para me tornar um homem em definitivo. Um sorriso que me faria virar louco quando preciso, um rosto triste que me faria matar se necessário. Uma voz macia, que ao dizer “Eu te amo” fazia qualquer problema partir.

Meus olhos estão semicerrados e eu sinto frio. O tempo parece ter voltado ao normal e meus espasmos param, mas a visão do rosto dela continua.

Eu só queria fazer o melhor para nós. Pensei estar fazendo isso. Saí correndo durante a manhã porque pensei que poderíamos ter um futuro melhor, que poderíamos ter filhos e uma grande casa com os móveis mais luxuosos. Pensei que nossa vida – juntos – duraria mais um século e que veríamos os filhos dos nossos filhos tendo suas vidas formadas. Que brincaríamos com as crianças das próximas gerações e daríamos conselhos sábios aos adultos. Que sentaríamos na varanda de uma de nossas casas e riríamos de lembranças do passado, da época em que eu precisava trabalhar sem parar enquanto construíamos aquele futuro brilhante. Que nossos filhos nos fariam falta quando partissem para construir a própria vida. Que daríamos as mãos à noite ao olhar as estrelas e pensar o quão curta é a nossa passagem por esta terra.

Eu só queria ter isso com você. Sei que foi ambição minha, mas não é como se eu pudesse conter um desejo desse tipo.

Eu saí cedo naquele dia porque pensei que estava dando um passo mais próximo do futuro. Jamais imaginaria que estava tomando proximidade com a frente de um veículo em alta velocidade em um momento de distração.

Eu posso lamentar por isso, não é? Posso sentir tristeza pelos dias que não teremos e pelo tanto de amor que está se perdendo aqui. Posso me permitir arrependimentos para com os meus amigos, minha família e para com você. Eu te amo. E eu sinto muito por isso, mas parece que eu vou ter de te deixar mais cedo do que previ.

Não é como se pudesse ficar ainda mais frio. Eu já não sinto mais dor, querida. Isso é bom. O tempo parece estar voltando ao normal.

Debilmente eu sinto a sua presença e vejo seu rosto, ainda que não esteja perto.

Eu queria poder tocá-la uma última vez, dar-lhe um último beijo de despedida.

Tento e fracasso em conter a lágrima insistente da lamúria que me tomaria tantas horas mais se esse tempo existisse para mim.

E no fim eu só precisava estar um minuto mais atrasado essa manhã.

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