Memória Pré-Postumada – Sérgio Conceição

MemóriaPós-Postumada

Memória Pré-Postumada

Por Sérgio Conceição

 

Meu dedo treme sobre o gatilho da arma. Seus membros tremem à frente do cano do revólver.

-Por favor… – Ele choraminga, fazendo-me rir. Sempre cretino, não é mesmo? – Me desculpe!

O olhar dele se vira para o canto mais distante possível daquele onde está caído o corpo de seu “amigo”.

-Olhe para ele. – Minha voz sai grave. Seca. Objetiva. Ele sente a sede de sangue. E, com medo, simplesmente obedece.

Gosto do medo que aquele cara emite. Faz com que me sinta bem.

– Acha mesmo que vai viver? – Falo para ele, me aproximando. – Depois do que fizeram comigo?

Ele não tem argumento. Nem deveria. O que haviam feito comigo vale meu movimento.

– Vocês tiraram minha honra, seus desgraçados. E na frente da minha namorada. Podiam estar mascarados, mas acharam mesmo que eu não descobriria? Que não iria achá-los?

Quase que puxo o gatilho. Seria ruim, pois queria brincar mais.

-E você sabe que vai morrer… – Sussurrei.

Então ele pareceu se irritar um pouco.

-Me mate logo! Não quero ter que esperar por isso!

-Ah… – Eu sorri. – Não tão rápido. – Ele pareceu querer recuar um pouco. Deve ter sido a visão da faca em minha mão. Por sorte, me assegurei que ele estivesse firmemente amarrado à minha poltrona antes de começar. – Vamos brincar agora…

Ele grita. Berra mesmo. Eu simplesmente rasgo. Sinto prazer. E vamos nesse ritual até que ele começa a diminuir a voz. Não vai aguentar mais que alguns minutos. O sangue dele parece forrar o chão em volta da cadeira em que está preso.

Sua respiração está pesada e seus olhos perderam grande parte do brilho. Só resta agora a casca que outrora me feriu.

-Agora sim… – Falo, enquanto encaro o rosto retalhado dele. – Podemos acabar.

Ouço batidas na porta da cozinha. A polícia finalmente chegou. Alguém deve ter chamado após escutar os gritos de dor.

Enfio o cano da arma na boca dele. Sequer sei seu nome. Não me importo. Seu sangue cheira bem.

-Alguma última palavra?

Ele grunhe algo ininteligível por conta do cano da arma.

-Hum… Que pena. Você não está mais falando coisa com coisa… – Rio da tentativa dele. Alguém força a porta. – Adeus.

O segundo estopim da noite. Eu me cubro com o sangue dele. A polícia parece louca do lado de fora.

Olho à minha volta. Tudo certo. Os dois estão como deveriam. Como vermes mortos.

Vou até a sala de estar. Tem um copo de vodka com gelo me esperando lá. Assim que me sento, de costas para a porta (propositalmente, é claro), a porta da cozinha parece ter sido derrubada com estrondo.

Levo o copo devagar à boca. A ponta da arma é levada à minha cabeça pela mão livre.

-Você! – O primeiro a me encontrar grita à porta: – Vire-se devagar!

Ele parece impressionar-se comigo quando a poltrona gira. O copo está pela metade.

-Abaixe a arma! – Ele grita. Os outros oficiais aparecem à minha porta.

Não abaixo a arma. Mas a vodka acabou. Ergo o copo para ele e depois encosto o copo ao lado da cabeça, pois aqueles gritos todos estavam fazendo-a doer de leve.

Do outro lado, puxo o gatilho lentamente.

Ainda posso ouvir os cacos de vidro tocando o chão e selando minha vingança antes do escuro tomar conta.

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