Meu Primeiro Amor – Thiago Camargo Conceição

Amor

Meu Primeiro Amor

Thiago Camargo Conceição

Fabinho gostava de Cris desde a 5ª série. Ele próprio tinha dificuldades em entender como podia gostar tanto de uma garota ou os motivos para isso. Já tivera interesse por garotas antes, mas nada naquela intensidade. Ela era bonita, inteligente, bondosa, divertida, enfim… Ele sabia que ela era perfeita. Mas tinha algo que a distinguia das outras e começara há alguns meses. Ele já a conhecia na época. Porém, até então, eram apenas amigos. Só que, um dia, como mágica, bastou que ela se aproximasse, inclinasse um pouco o rosto, mexesse no cabelo e sorrisse. E ele sentiu como se fosse tomado por um feitiço. De repente, ninguém mais se comparava a ela. Ele não sabia quando começara a gostar dela, mas agora pensava na garota a todo momento. Ficava distraído o tempo todo, seu olhar se perdia, sua mente afundava em sonhos tolos. Perto dela ele ficava bobo e alegre. Eram amigos antes, mas agora ele a procurava a todo momento. Talvez justamente por ser amigo dela ele não conseguiu criar coragem para contar quando seus sentimentos mudaram. Ele quis falar, mas sempre que estava com ela um medo lhe tomava e sua boca travava. Momentos de silêncio quando estavam juntos faziam com que ele ficasse muito mais constrangido que o normal.

Aquilo começou a incomodá-lo. A situação como um todo era desconfortável. Meses se passaram e a situação não mudava. A 6ª série estava para acabar agora e ele ainda não falara nada. O calendário não ajudava e os dias continuavam passando numa velocidade espantosa. Ele queria segurar o relógio e parar o tempo. Precisava pensar, mas se continuasse assim ele talvez nunca pudesse falar como se sentia. As férias de fim de ano estavam a dois meses de distância e ele não podia deixar para falar no ano seguinte. Não tinha como saber se eles estariam tão próximos no ano seguinte. Ele não queria arruinar a amizade, mas já não podia conter a vontade de estar com ela como algo mais que um amigo.

Por isso ele se decidiu. Falaria com ela na semana seguinte. Era uma quinta-feira. Se fizesse isso na sexta e ela aceitasse por impulso, talvez eles não se vissem no final de semana e ela poderia mudar de ideia. Segunda era o melhor dia. Mesmo que ela pedisse um tempo para pensar eles ainda se veriam durante os dias seguintes e suas chances aumentavam. Na cabeça de Fabinho esse era o melhor plano.

O único problema de um garoto que toma uma decisão e faz um plano depois de tanto tempo é que ele acaba morrendo de vontade de contar para todos o seu incrível esquema. Com Fabinho não foi diferente. E seu melhor amigo, Carlos, percebeu que havia algo de estranho com o amigo naquela sexta-feira. Bastou alguma paciência e algumas perguntas para Fabinho contar seu plano. Carlos ficou surpreso. Fabinho nunca dera sinais de que gostava da Cris. Agora ele queria ajudar. Quando Fabinho admitiu estar nervoso e um pouco ansioso, Carlos se ofereceu para perguntar à garota por ele. Fabinho hesitou, mas não se viu capaz de negar o caminho mais fácil. Decidiu aceitar.

Na segunda-feira, Carlos veio confirmar se Fabinho tinha certeza se queria aquilo. O garoto estava tão ansioso que aquele dia mais parecia um borrão muito confuso. Ele queria falar sozinho com ela, mas novamente não encontrou em si forças. Aceitou a ajuda do amigo. Confiava nele. Sabia que, nervoso daquele jeito, era capaz de piorar a situação ao invés de fazer um pedido decente. Ele sabia, no fundo, que aquilo não passava de desculpas, mas decidiu ignorar essa linha de raciocínio. Seu nervosismo era tanto que a própria realidade estava esquisita. Talvez estivesse sonhando com aquele dia.

Carlos foi e falou com ela. Algumas pessoas da sala escutaram parte da conversa e começaram a ficar curiosas, ansiosas pelo desfecho. À distância, Fabinho viu Cris respondendo algo, vermelhíssima. Carlos retornou para o amigo com um sorriso constrangido. Não era portador de boas notícias. Aquela seria uma péssima tarde para Fabinho.

O garoto passou a semana cabisbaixo. Não falou novamente com Cris. Seus pais perceberam seu estado de espírito, mas não puderam arrancar nada dele. O menino estava envergonhado. Aquela era a maior derrota de sua vida. O que faria agora? Todos na classe sabiam o que tinha acontecido. Ele tinha vergonha até mesmo de olhar no rosto dela. Passava ao seu lado em silêncio. Sentia falta de estar perto dela, de fazê-la rir, de conversar com ela. E o pior: Por causa do fato de sua rejeição ter sido feita por intermédio de Carlos, Fabinho agora pensava em si mesmo como um covarde. Ele queria ter falado sozinho com ela, ter feito de acordo com o plano. Essa sensação de que não dera tudo de si era horrível. Ele precisava fazer alguma coisa para consertar aquilo. Mas o medo agora era pior. Afinal, já tinha sido rejeitado. Ele parecia enxergar um fantasma que ameaçava algo ainda pior. Algo que ele não sabia o que era, mas estava convicto de que existia.

As férias de verão estavam a duas semanas de distância. Ele sabia que não teria outra chance. Um dia acordou mais bem-disposto e resolveu que tinha que fazer aquilo. Saiu disposto. Precisava ser impulsivo. Esperou impaciente o sinal para o intervalo. Quando tocou, ele pediu a ela que o encontrasse na parte mais isolada do pátio, longe da cantina. Ela perguntou o motivo e ele respondeu que precisava conversar sozinho com ela.

Estava tudo pronto. Ele tinha escrito um pequeno discurso. Era a hora. Ela chegou. Ele olhou nos olhos dela. A garota não sorria.

-O que foi, Fabinho?

Ele estava nervoso demais para articular uma palavra sequer, quem diria lembrar o discurso que preparara. Não podia lê-lo, disso ele sabia. Onde estava a sua coragem? Ou sua voz? Precisava falar algo! Agora!

-Se você não falar o que foi, eu vou embora.

-Eu… – Ele mordeu o lábio, tentando esmagar a vergonha. – Eu queria pedir pessoalmente.

-O quê? – Ela não entendeu de imediato.

-Eu pedi pro Carlos pedir por mim, mas depois ficou parecendo errado. Eu… Eu não sou covarde.

-E o que isso tem a ver?

-Eu não devia ter medo. Devia ter vindo pessoalmente, fazer que nem estou fazendo. Eu não quero me arrepender. Eu vi em filmes. Se não fizer isso da maneira correta, posso ficar igual aqueles caras em filmes que ficam anos em solidão e com medo de encarar os desafios. – Ela não interrompeu. Ele parou um segundo para respirar e reunir coragem. – Eu … – Ele respirou fundo. Cerrou os punhos. Sentiu um pouco de suor brotar de sua testa. – Eu gosto de você, Cris. Você é legal, inteligente, linda e divertida. Você quer namorar comigo?

Silêncio. Ele tremia e tremia. Mas, antes que a resposta viesse ele sentiu um peso sair de seu peito. Olhou para ela. Era agora.

A garota sorriu.

-Por que da outra vez você pediu pro Carlos falar comigo? Foi estranho, eu fiquei morrendo de vergonha. Me apavorou.

Ele enrubesceu.

-Eu estava com medo de pedir.

-Você não está mais com medo?

-Não.

-Hoje é sexta, né?

-Sim.

-Amanhã tem uma festa de aniversário do irmão de uma amiga minha. Se você quiser a gente pode ir junto.

Ele ficou quieto alguns segundos. Estava pensando. Ela veio um pouco para perto dele.

-Quer dizer que você… Aceitou? – Ela continuava sorrindo.

-Eu senti falta de ficar junto com você, sabia?

Ele voltou a tremer de nervoso. Ela também parecia nervosa. Isso o acalmou um pouco. Em meio a todos os medos que invadiram sua mente ele achou espaço para sorrir.

-Eu senti sua falta mais ainda.

O sinal tocou. Eles deram as mãos e decidiram atrasar alguns minutos. Às vezes é melhor não evitar a situação que dá medo. Esse era o único pensamento que Rafael teria no segundo anterior aos beijo que daria.

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