A Declamação Trágica – Basílio da Gama

Projeto Renascimento 05

A Declamação Trágica

Basílio da Gama

Poema dedicado às belas artes

 

Tu, que os costumes nossos melhor que ninguém pintas,
Ensina-me o segredo, com que dás alma às tintas.
Empresta-me as imagens, a quem dão vida as cores,
Quadros, que a tua mão quis semear de flores.
Tu nos deixaste as leis dos números diversos,
Despréaux, eu canto a Arte de recitar os versos.
A Dama, que em teus muros, magnífica Lisboa,
Espera ornar a frente co’a trágica coroa,
Se quer que em seus louvores o povo se desvele,
Nos papéis furiosos quereis levar a palma?
Pinte o terror dos olhos toda a desordem d’alma.
Seja funesta a voz, horrendo, e incerto o passo.
De vosso rosto o povo leia no breve espaço
Projetos horrorosos, que forma um’alma impia;
E, apenas vós saís, em vós veja Atalia,
Que sobre si já sente a mão que chove os raios.
Cercada de remorsos, entre cruéis desmaios,
Uni, se é que quereis arrebatar-nos logo,
A um medonho aspecto um coração de fogo.
O público embebido c’oa trágica grandeza
Olha pra o vosso estado, não olha pra beleza.
Estátuas, sobretudo, Melpômene aborrece,
Em cujos frios rostos paixão não aparece.
Cheias de afetação, seus insensíveis peitos
Com arte dão suspiros, chorando fazem jeitos.
A Dama presumida estuda o dia inteiro
Um brando mover de olhos, ao vidro lisonjeiro.
Vai, um por um, dispondo por simetria os passos,
E aplaude ao movimento dos vagarosos braços.
Do vidro, que te engana, não sigas o conselho.
Busca, que dentro d’alma tens o melhor espelho.
Defronte dos cristais, que adulam a vaidade,
Não, a razão não julga: quem julga é a vontade.
Porque feições alheias, por obra do artifício,
Vos formam da beleza o mágico edifício,
C’oa roupa flutuante azul, e cor-de-rosa,
Cuidais que fingis Vênus, ou Palas majestosa?
Não vedes que a soberba vos alucina, e cega?
Voss’alma porventura toda jamais se entrega?
Os vossos olhos mortos nunca disseram nada?
Moveis-me ao pranto, ainda de lágrimas banhada?
Mas vós continuais com um doce sorriso!
Assim, assim na fonte se contemplou Narciso.
Dentro do vosso peito é que podeis achar
A arte de enternecer, e o modo de agradar.
Depois de um longo estudo de um dia, e outro dia,
Saí: o vosso gênio vos servirá de guia.
Já o Casquilho louco, que é de si mesmo amante,
Chega, desaparece, torna no mesmo instante,
Inficionando o ar c’o almíscar que em si deita.
O sério Magistrado se entesa, e se endireita.
O grosso Negociante, que o ler tem por desdoiro,
Todos os seus desejos comprando a peso de oiro,
Pende de vossa boca no curvo anfiteatro.
Fica a platéia atenta c’os olhos no teatro.
Por vós é que se espera: está tudo em segredo:
Olhai pra multidão sem enfiar de medo.
Mas nunca os vossos olhos doces, e encantadores
Pareça que mendigam do público os louvores.
Desdenha esse artifício o público arrogante.
Zomba da namorada, honra a representante.
Entrando, o vosso andar simples, e majestoso
Ofreça aos nossos olhos um ar imperioso.
Conforme a agitação seja também diverso:
Rápido, ou vagaroso, como o pedir o verso.
Que sem afetação, na encantadora sala,
Imitem as ações tudo o que a língua fala.
Cuidai em reprimir-lhe o excesso tão-somente.
Que sirvam as paixões de intérprete eloqüente.
Não posso ver as mãos, que de seu sítio saem,
Erguem-se por engonços, e por engonços caem.
Por isso as cenas mudas querem estudo à parte.
Nelas é que consiste todo o triunfo d’arte.
Então é que o talento chega à maior altura.
A glória das ações é toda da figura.
As vossas narrações mostrem o interno fogo:
O público impaciente quer tudo saber logo.
Perca-se embora o verso, mas vagaroso, e lento
Da tímida platéia não canse o sofrimento.
Quem quer que um doce engano cause o maior deleite,
Ao severo costume convém que se sujeite.
Rio-me da figura, que indigna do seu posto
Sacode o jugo, e traja como lhe pede o gosto;
E que é tão atrevida, que por empresa toma
Varrer com um donaire o pó da antiga Roma.
Fora de seu lugar não afeteis riqueza:
Olhai para o papel, segui a Natureza.
Representais Electra nos criminosos lares?
Lembrai-vos que é cativa, que vive entre pesares.
Não brilhe a sua testa, não resplandeça o manto,
Não sofre alegres cores rosto, que ofusca o pranto.
O povo, que vos julga, e que examina os erros,
Não quer de vós rubins, quer tão-somente ferros.
Abri a antiga História, ali vereis dispersas
Pelos diversos climas trinta nações diversas.
Examinai-lhe os gostos, a inclinação, os Numes,
Quais eram seus vestidos, as artes, os costumes.
A Fábula engenhosa, que úteis enganos tece,
Todos os seus tesouros liberalmente ofrece.
Ali é que a Verdade, que ornatos vãos reprova,
Sendo no fundo a mesma, sempre parece nova.
Aqui encontrais Dido, que à pena não resiste:
Seu rosto descorado cobre uma nuvem triste.
Forceja o roto peito lutando com a morte:
Levanta-se três vezes, e cai da mesma sorte.
Seus olhos, que expirando guardam de Amor a chama,
Parece que inda pedem aos Céus o Herói que el’ama.
Chora de dor, e de ira: só com suspiros fala.
Procura a luz do dia: geme depois de achá-la.
Niobe mais além, mulher soberba, e ousada,
A Mãe mais atrevida, e a Mãe mais desgraçada.
Os filhos uns sobre outros, os filhos seus amados,
Que vista dolorosa! de setas trespassados.
À força de sentir parece que não sente.
O rosto descaído, olhando fixamente,
Muda ficou. As mágoas nela puderam tanto,
Que se secou nos olhos a fonte do seu p
Àquele seu silêncio nenhuma voz iguala.
A voz da natureza no seu silêncio fala.
Quereis que uma Rainha, que tem consigo guerra,
Que traz no rosto os crimes, que vê rasgar-se a terra,
Que a roupa, e todo chão vê de seu sangue asperso,
No último suspiro dê a pancada ao verso?
Quereis que uma Donzela, que creu em fé perjura,
Aflita, abandonada no horror da noite escura,
Gritando se resolva ao temerário efeito,
E que se lembre da arte quando trespassa o peito?
Rainha, que o teatro por breve tempo adora,
Esse orgulhoso fasto não conserveis cá fora.
Deixai na cena o cetro, a raça ilustre, e nobre,
E a pompa, que a meus olhos vos rouba, e vos encobre.
Tirou dentre ruínas Ferreira a Apolo aceito
A pálida Tragédia com um punhal no peito.
Os velhos seus altares junto do Tejo erguidos
Cobriu areia, e erva. Ainda mal cingidos
(Séculos infelices, e tanto enfim pudestes!)
Murcharam sobre a frente os fúnebres ciprestes.
Apareceu C*** à voz, que move, e encanta,
O corpo sobre o braço Melpômene levanta.
A ignorância, a inveja chorem de dor, e de ira.
É ela, eu ouço, eu vejo a tímida Palmira,
Que aos pés do velho Pai, inda constante, e forte,
De um crime involuntário pede em castigo a morte.
Ah! quando, ao ver o Irmão nos últimos desmaios,
Lança do peito fogo, lança dos olhos raios,
Ó alma grande, e rara, eu mesmo, eu mesmo o vi,
O Gênio de Voltaire erra ao redor de ti.
Mas eu dou-vos lições inúteis, e infiéis,
E a minha Musa irada arroja os seus pincéis,
Se eles vos não infundem soberba que se estima,
Soberba criadora, fogo que nos anima.
Não, não temais a afronta do público insolente.
Abriu, abriu os olhos a Lusitana gente.
Se já vos chamou vis, cora de tê-lo feito.
Não, não despreza as artes, que adora no seu peito.
Eu sei que um Sábio ilustre, a quem venera a Fama,
Um, que aborrece o mundo, e o mundo todo o ama,
Do seu retiro, adonde mora a verdade nua,
Troveja sobre vós com a eloqüência sua:
E no seu ócio triste cercado de desgostos
Quis corromper com fel todos os nossos gostos.
Eu tremo, e a minha Musa, por mais que se desvele,
Respeita este Demóstenes inda queixosa dele.
Mas contra as suas iras vos devo consolar.
Um Sábio enfim é homem, podia-se enganar.
Se ele de todo o mundo forma uma imagem feia,
Nós por que não faremos uma formosa idéia?
Dos crédulos humanos, Censores rigorosos,
Para que é ter invejado que nos faz ditosos?
Deixai-nos esta ao menos fantástica beleza:
Um engenhoso engano adorna a Natureza.
Roubar-nos dos talentos os dons encantadores
É despojar a terra de frutos, e de flores.
Sabei pois rechaçar seus frívolos intentos:
Lá vão os seus queixumes levados pelos ventos.
Ele, assim mesmo austero, bem pode ser vencido.
Fazei-vos estimar, e tendes respondido.
Lá numa região a nós desconhecida,
Sobre uma nuvem alta de púrpura vestida,
Levanta aos Céus um templo a soberba fachada.
Com temerosa mão proíbe o gênio a entrada
A críticos pedantes, estúpidos autores,
Que em vão forçar pertendem do século os louvores.
Mostra-se ali sem véu a cândida Verdade.
Neste palácio habita a Imortalidade.
A Preocupação, a quem o vulgo incensa,
Sem máscara bramindo foge da sua presença.
As palmas, que das artes são prêmios verdadeiros,
Se enlaçam orgulhosas co’as palmas dos guerreiros.
Neste lugar Virgílio passeia igual a Augusto,
Homero, ao pé de Aquiles não sente horror, nem susto.
Mistura a terna Safo ornada de mil flores
As murtas amorosas aos loiros vencedores.
Ovídio ali parece que a Júlia a amar ensine.
Chapemélé inda chora nos braços de Racine.
A irada de Couvreur desgrenha a trança bela.
Pára Corneille atento, e fixa os olhos nela.
Vós outras, a quem cinge Melpômene de flores,
Tendes assento ao pé dos imortais autores.
Da horrível Dumesnil o tempo não consome,
Junto ao de Crébillon, com sangue escrito o nome.
Clairon, a quem nenhuma se pode comparar,
Pôs junto de Voltaire a Glória o seu lugar.
Preparam lá triunfos para C… bela.
Assim não se resolva a recebê-los ela.
Que mágoas causaria o caso seu fatal!
Perdiam muito os homens, se a vissem imortal.


Projeto Renascimento

Seleção por Lucas Alves Serjento


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